AS GRANDES PESSOAS DA MINHA VIDA

as grandes pessoas da minha vida

Veja ali. Encarquilhada sobre a surrada carteira de ferro pintada em cinza, Fábia termina a redação do relatório. Vejo empenho em Fábia. Alguns ônibus — da janela se viam — passavam levantando o pó da rua escondida. Caneta vermelha e os pés descansam na carteira que habita o espaço de sua frente. As carteiras continuam de ferro. As carteiras continuam cinzas, apesar do vermelho da caneta e do empenho de Fábia. Daqui de onde estou agora, vejo que Fábia é sozinha. Que sua blusa esconde no colorido feroz um desprezo de seios. Olho para o ventilador no teto. Fábia parou um instante para enfiar o bocal da caneta no orifício que dá para o labirinto esquerdo no seu ouvido. Fábia esperava alguma coisa em sua vida, pacientemente. Olhei-a, novamente. Fábia retira o excesso de cera.

Saio. Vou pegar um café no térreo.

No elevador, encontro-me com Carla Patrícia. Chegou vestindo um azul fazendo dobras na pele. Um pouco acima do peso ideal, rechonchuda, a vestimenta lhe apertava o par de enormes peitos. Tinha peitos e fingia sabedoria indo ao doutorado toda terça-feira lá na capital. Carla Patrícia também era sozinha. Carla Patrícia esperava alguma coisa da vida, assim, assim… Com ela, entrou também a Cláudia Janete. Eu não gosto da Cláudia Janete. A culpa é daquela banha toda despencada logo abaixo dos seus peitos despencados. Uma barriga asquerosa, horrível. Cláudia Janete é a expressão máxima da falta de amor próprio. Ela não se ama. Tenho certeza disso. Todos têm. É uma banha purulenta. Asquerosa, repito. Podem me chamar de preconceituoso, mas Cláudia Janete vai permanecer sozinha por causa dela mesma. Ninguém vai amar aquela banha toda. É excesso demais. É redundância em matéria de gordura. E o pior é que Cláudia Janete sempre me cumprimenta quando chego ao trabalho. Eu finjo que gosto dela e que tenho respeito. Pego até na mão dela. Cláudia Janete parece que passa sebo na palma da mão. Eu não gosto da Cláudia Janete. E a culpa, todo mundo sabe, é daquela banha toda despencada logo abaixo dos seus peitos despencados.

O elevador chega ao térreo. Vejo as duas tomarem a direção da portaria. Sigo meu caminho. Dou de cara com quem? Com ele, Andielson Prestes. Andielson Nunes Prestes de Ramos, 47 anos, natural de Bodocó-PE, atua na área de Marketing Pessoal, relacionamento político e com pesquisas de opinião. É administrador de empresa com MBA pela Oxford, sendo pioneiro na região no ramo de agências de propaganda. Sendo assim, a conclusão que tiramos, logo de cara, é a de que Andielson labuta com o “improvável”, i.e., com gente. E isso basta para explicar a razão pela qual Andielson até hoje não aprendeu a lidar com o humor do Ego, seu totó. Você concorda comigo? Esquece! Ali está o Tom, com sua eterna cigarrilha. Ele botou a culpa no León Pinelo. A Amazônia não tinha nada de ser este tal Paraíso Terrestre. “Deus não é brasileiro, minha gente!”, dizia.

Fito a moça da recepção. O nome dela é Islana Gracy Joiyce. Imagino pequenas narrativas com uma personagem que possui esse nome, por exemplo: “Raios de sol apontaram dentro do quarto de Islana, que de chofre foi ao espelho. Quis averiguar possíveis rugas ou olheiras ou marcas feitas pelo travesseiro de algodão. Levantou a camisola de seda e apalpou os seios de pêssego. Não encontrando nódulos, despiu-se completamente. Procurou pelo sabonete antigermes, escovou os dentes com escova automática, pôs a touca sobre a cabeça e banhou-se. Delicadamente, atiçou a circulação com uma bucha vegetal trazida do Marrocos. Lavar o cabelo só dia sim, dia não. Hoje é terça. Portanto, dia não. Pesquisou o sabonete líquido de leite de gnu africano, bom para evitar flacidez precoce. Passou quarenta e dois minutos mais 34 segundos sob o chuveiro e não pensou no povo etíope sem água para beber. Islana ainda urinou e, por fim, preveniu-se contra o “boi” que poderia vir hoje ou amanhã. Usou aquele com gel e abas. Com a toalha enrolada no corpo, foi em direção à mesinha de perfumes. Perfumou-se. Sutiã, corsário, blusa de babadinhos, óculos contra-UV, lápis, rouge, batom, pulseiras, anéis, brilhos, brincos, unhas, misses, piranhas, um mocassim e uma tri-fil bege. Islana Gracy Joiyce ia tomar café.”

Dou risada das coisas que penso. Por dentro, sou muito engraçado.

— Bom dia, Anália.

— Bom dia, seu Gilberto.

Café com pão logo cedo. Para inchar e queimar, já que a vida andava mesmo era muito murcha. Anália era uma mulher de meia idade que tinha uma raiva do Marquês de Pombal. Lá pelos seus dezesseis ou dezessete anos de idade é que Anália viu pela primeira vez um livro em sua frente. O primeiro e o único, diga-se de passagem. E diz até hoje nas rodinhas de amizade dominical ou nas da manicure quinzenal que era um tal de Quaresma que ia para todo canto defendendo uma língua que era uma língua de índio dizer. O tupi. Anália diz também — e diz sempre — que leu o livro todinho e que ficou curiosa e que pesquisou umas duas olhadas numa enciclopédia atrasada, velha e empoeirada que tinha na escola e que foi a única vez que ela havia ficado tão interessada assim com as coisas da escola. Lembra que tinha sido tudo por causa do Marquês de Pombal, um homem que na imaginação dela devia andar sempre com uma roupa cor de tangerina, com um chapéu de penas de pavão e um bigode grande lhe fazendo o desenho do contorno da boca. E que devia ser mal, muito mal. Foi a única vez que Anália se rebelou nessa vida. E era nessas mesmas rodinhas de amizade dominical ou nas da manicure que ela abria a boca, inflamada num orgulho obsoleto e imprestável, e proclamava:

— Os brasileiro devia era de dizer era o Tupi!

Pobre Anália! Santa ingenuidade! Bom trabalho, minha querida! Na fila do café, esbarrei-me com Jorge Maurício da Assessoria Técnica. Contam as más línguas que um dia a mulher de Jorge Maurício foi comprar o pão deles de cada dia na padaria Regimone, uma rua depois da deles. Chegando lá, observou que o carro do homem alto e careca esperando o saco de pão na fila estava com um amassado na porta do carona. A mulher de Jorge Maurício não perdeu tempo. Olha, meu marido, o Jorge Maurício, é um ótimo funileiro e pode dar um jeito no amassado ali na porta do seu carro, disse a mulher de Jorge Maurício. O homem alto e careca acenou um sim, ainda meio afobado com a ideia de ter de gastar mais dinheiro com aquela baranga de carro. Mas a mulher do Jorge Maurício não perdia tempo e repetiu a indicação do serviço de lanternagem no qual o Jorge Maurício tinha se especializado. O homem alto e careca, já com o saco de pão em uma das mãos pagando já os dois reais de pão, acenou um sim mais afobado que da primeira vez que acenou o primeiro sim. Mas a mulher do Jorge Maurício não perdia tempo e acabou se esquecendo da fila e do saco seu de pão e seguiu o homem alto e careca até o carro e fez análise com as mãos, apalpou, fungou, sentiu, alisou e por fim disse que o Jorge Maurício, seu marido, é um ótimo funileiro e que ele podia dar um jeito no amassado da porta do carona. O homem alto e careca acenou um sim, mais afobado que o ainda afobado da outra vez que tinha sido talvez a terceira ou quarta vez da indicação. Finalmente, já dentro do carro, o homem alto e careca deu a partida, acenou um último sim muito mais afobado que o sim da terceira ou da quarta vez à mulher do Jorge Maurício que não perdia tempo e que se preparava para passar o orçamento do serviço que o seu marido, o Jorge Maurício, podia fazer no amassado da porta do carona do carro. O homem alto e careca, sem titubear e sem acenar um derradeiro sim meio que deveras muito mais que afobado com a ideia de ter de tirar dinheiro do salário já desgraçado demais que ganhava como funileiro na Oficina Martelinho d’Ouro que ele mesmo tinha aberto no mês passado, acelerou forte de fazer cantiga com os pneus. Feliz por não ter perdido tempo, a mulher do Jorge Maurício foi, agora sim, receber o saco de pão que se encontrava já sobre o balcão da padaria Regimone. Enquanto isso, o seu marido, o Jorge Maurício, colocava sobre a geladeira, na cozinha de casa, o dinheiro do pão de amanhã. Mas isso, dizem, foi há bastante tempo.

Um duplo — pensei, ao me aproximar da máquina de café.

Alessandra Barcelar é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu e atua na área da Saúde. Colaborou para revistas de literatura como Amálgama e Revistas Luso-Brasileira. Participou do laboratório de escrita criativa com Evandro Affonso Ferreira. Atualmente integra o projeto de leitores voluntários no Instituto de Infectologia Emílio Ribas e Contadores de histórias na Rede Social Senac.

Postado originalmente: https://revistagueto.com/2017/07/13/as-grandes-pessoas-da-minha-vida/

 

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