AS GRANDES PESSOAS DA MINHA VIDA


as grandes pessoas da minha vida

Veja ali. Encarquilhada sobre a surrada carteira de ferro pintada em cinza, Fábia termina a redação do relatório. Vejo empenho em Fábia. Alguns ônibus — da janela se viam — passavam levantando o pó da rua escondida. Caneta vermelha e os pés descansam na carteira que habita o espaço de sua frente. As carteiras continuam de ferro. As carteiras continuam cinzas, apesar do vermelho da caneta e do empenho de Fábia. Daqui de onde estou agora, vejo que Fábia é sozinha. Que sua blusa esconde no colorido feroz um desprezo de seios. Olho para o ventilador no teto. Fábia parou um instante para enfiar o bocal da caneta no orifício que dá para o labirinto esquerdo no seu ouvido. Fábia esperava alguma coisa em sua vida, pacientemente. Olhei-a, novamente. Fábia retira o excesso de cera.

Saio. Vou pegar um café no térreo.

No elevador, encontro-me com Carla Patrícia. Chegou vestindo um azul fazendo dobras na pele. Um pouco acima do peso ideal, rechonchuda, a vestimenta lhe apertava o par de enormes peitos. Tinha peitos e fingia sabedoria indo ao doutorado toda terça-feira lá na capital. Carla Patrícia também era sozinha. Carla Patrícia esperava alguma coisa da vida, assim, assim… Com ela, entrou também a Cláudia Janete. Eu não gosto da Cláudia Janete. A culpa é daquela banha toda despencada logo abaixo dos seus peitos despencados. Uma barriga asquerosa, horrível. Cláudia Janete é a expressão máxima da falta de amor próprio. Ela não se ama. Tenho certeza disso. Todos têm. É uma banha purulenta. Asquerosa, repito. Podem me chamar de preconceituoso, mas Cláudia Janete vai permanecer sozinha por causa dela mesma. Ninguém vai amar aquela banha toda. É excesso demais. É redundância em matéria de gordura. E o pior é que Cláudia Janete sempre me cumprimenta quando chego ao trabalho. Eu finjo que gosto dela e que tenho respeito. Pego até na mão dela. Cláudia Janete parece que passa sebo na palma da mão. Eu não gosto da Cláudia Janete. E a culpa, todo mundo sabe, é daquela banha toda despencada logo abaixo dos seus peitos despencados.

O elevador chega ao térreo. Vejo as duas tomarem a direção da portaria. Sigo meu caminho. Dou de cara com quem? Com ele, Andielson Prestes. Andielson Nunes Prestes de Ramos, 47 anos, natural de Bodocó-PE, atua na área de Marketing Pessoal, relacionamento político e com pesquisas de opinião. É administrador de empresa com MBA pela Oxford, sendo pioneiro na região no ramo de agências de propaganda. Sendo assim, a conclusão que tiramos, logo de cara, é a de que Andielson labuta com o “improvável”, i.e., com gente. E isso basta para explicar a razão pela qual Andielson até hoje não aprendeu a lidar com o humor do Ego, seu totó. Você concorda comigo? Esquece! Ali está o Tom, com sua eterna cigarrilha. Ele botou a culpa no León Pinelo. A Amazônia não tinha nada de ser este tal Paraíso Terrestre. “Deus não é brasileiro, minha gente!”, dizia.

Fito a moça da recepção. O nome dela é Islana Gracy Joiyce. Imagino pequenas narrativas com uma personagem que possui esse nome, por exemplo: “Raios de sol apontaram dentro do quarto de Islana, que de chofre foi ao espelho. Quis averiguar possíveis rugas ou olheiras ou marcas feitas pelo travesseiro de algodão. Levantou a camisola de seda e apalpou os seios de pêssego. Não encontrando nódulos, despiu-se completamente. Procurou pelo sabonete antigermes, escovou os dentes com escova automática, pôs a touca sobre a cabeça e banhou-se. Delicadamente, atiçou a circulação com uma bucha vegetal trazida do Marrocos. Lavar o cabelo só dia sim, dia não. Hoje é terça. Portanto, dia não. Pesquisou o sabonete líquido de leite de gnu africano, bom para evitar flacidez precoce. Passou quarenta e dois minutos mais 34 segundos sob o chuveiro e não pensou no povo etíope sem água para beber. Islana ainda urinou e, por fim, preveniu-se contra o “boi” que poderia vir hoje ou amanhã. Usou aquele com gel e abas. Com a toalha enrolada no corpo, foi em direção à mesinha de perfumes. Perfumou-se. Sutiã, corsário, blusa de babadinhos, óculos contra-UV, lápis, rouge, batom, pulseiras, anéis, brilhos, brincos, unhas, misses, piranhas, um mocassim e uma tri-fil bege. Islana Gracy Joiyce ia tomar café.”

Dou risada das coisas que penso. Por dentro, sou muito engraçado.

— Bom dia, Anália.

— Bom dia, seu Gilberto.

Café com pão logo cedo. Para inchar e queimar, já que a vida andava mesmo era muito murcha. Anália era uma mulher de meia idade que tinha uma raiva do Marquês de Pombal. Lá pelos seus dezesseis ou dezessete anos de idade é que Anália viu pela primeira vez um livro em sua frente. O primeiro e o único, diga-se de passagem. E diz até hoje nas rodinhas de amizade dominical ou nas da manicure quinzenal que era um tal de Quaresma que ia para todo canto defendendo uma língua que era uma língua de índio dizer. O tupi. Anália diz também — e diz sempre — que leu o livro todinho e que ficou curiosa e que pesquisou umas duas olhadas numa enciclopédia atrasada, velha e empoeirada que tinha na escola e que foi a única vez que ela havia ficado tão interessada assim com as coisas da escola. Lembra que tinha sido tudo por causa do Marquês de Pombal, um homem que na imaginação dela devia andar sempre com uma roupa cor de tangerina, com um chapéu de penas de pavão e um bigode grande lhe fazendo o desenho do contorno da boca. E que devia ser mal, muito mal. Foi a única vez que Anália se rebelou nessa vida. E era nessas mesmas rodinhas de amizade dominical ou nas da manicure que ela abria a boca, inflamada num orgulho obsoleto e imprestável, e proclamava:

— Os brasileiro devia era de dizer era o Tupi!

Pobre Anália! Santa ingenuidade! Bom trabalho, minha querida! Na fila do café, esbarrei-me com Jorge Maurício da Assessoria Técnica. Contam as más línguas que um dia a mulher de Jorge Maurício foi comprar o pão deles de cada dia na padaria Regimone, uma rua depois da deles. Chegando lá, observou que o carro do homem alto e careca esperando o saco de pão na fila estava com um amassado na porta do carona. A mulher de Jorge Maurício não perdeu tempo. Olha, meu marido, o Jorge Maurício, é um ótimo funileiro e pode dar um jeito no amassado ali na porta do seu carro, disse a mulher de Jorge Maurício. O homem alto e careca acenou um sim, ainda meio afobado com a ideia de ter de gastar mais dinheiro com aquela baranga de carro. Mas a mulher do Jorge Maurício não perdia tempo e repetiu a indicação do serviço de lanternagem no qual o Jorge Maurício tinha se especializado. O homem alto e careca, já com o saco de pão em uma das mãos pagando já os dois reais de pão, acenou um sim mais afobado que da primeira vez que acenou o primeiro sim. Mas a mulher do Jorge Maurício não perdia tempo e acabou se esquecendo da fila e do saco seu de pão e seguiu o homem alto e careca até o carro e fez análise com as mãos, apalpou, fungou, sentiu, alisou e por fim disse que o Jorge Maurício, seu marido, é um ótimo funileiro e que ele podia dar um jeito no amassado da porta do carona. O homem alto e careca acenou um sim, mais afobado que o ainda afobado da outra vez que tinha sido talvez a terceira ou quarta vez da indicação. Finalmente, já dentro do carro, o homem alto e careca deu a partida, acenou um último sim muito mais afobado que o sim da terceira ou da quarta vez à mulher do Jorge Maurício que não perdia tempo e que se preparava para passar o orçamento do serviço que o seu marido, o Jorge Maurício, podia fazer no amassado da porta do carona do carro. O homem alto e careca, sem titubear e sem acenar um derradeiro sim meio que deveras muito mais que afobado com a ideia de ter de tirar dinheiro do salário já desgraçado demais que ganhava como funileiro na Oficina Martelinho d’Ouro que ele mesmo tinha aberto no mês passado, acelerou forte de fazer cantiga com os pneus. Feliz por não ter perdido tempo, a mulher do Jorge Maurício foi, agora sim, receber o saco de pão que se encontrava já sobre o balcão da padaria Regimone. Enquanto isso, o seu marido, o Jorge Maurício, colocava sobre a geladeira, na cozinha de casa, o dinheiro do pão de amanhã. Mas isso, dizem, foi há bastante tempo.

Um duplo — pensei, ao me aproximar da máquina de café.

Alessandra Barcelar é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu e atua na área da Saúde. Colaborou para revistas de literatura como Amálgama e Revistas Luso-Brasileira. Participou do laboratório de escrita criativa com Evandro Affonso Ferreira. Atualmente integra o projeto de leitores voluntários no Instituto de Infectologia Emílio Ribas e Contadores de histórias na Rede Social Senac.

Postado originalmente: https://revistagueto.com/2017/07/13/as-grandes-pessoas-da-minha-vida/

 

MAIS LAIQUIS


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MAIS LAIQUIS – MARCIO RENATO DOS SANTOS

O livro de contos oferece 13 histórias rápidas e de agradável leitura, bem humoradas, que fala ao leitor sobre o isolamento e a virtualidade.
O título do livro fala de uma maneira irônica sobre o novo comportamento de conversas por “curtidas”, o desejo de visibilidade instantânea, e o fim da privacidade, a sensação de estar “vivendo o aqui e agora”, levando o leitor a refletir sobre uma nova interpretação da palavra “compartilhar”.
Porém, algo que fica claro é que o humor é apenas aparente, quase todos os contos abordam um tema oculto da alma: a crueldade, mesclada em momentos de narração com momentos de diálogos diretos e bem estruturados como no conto “O dia em que te vi”. O conto Bode Careca, na minha opinião, o melhor conto do livro, demonstra bem como a desconexão com o real, nos afeta diariamente em todas relações, inveja…

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Arquitetos do Futuro


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Este livro é tão impressionante que antes de tudo eu queria indica-lo para todos os apaixonados pela ficção científica.
São oito contos que, segundo o editor, tem a intenção de representar o que de melhor existe no gênero. Ao meu ver, ele foi extremamente bem sucedido. Quero fazer um comentário breve sobre alguns dos contos, mas já adianto que cada um deles é significativo na carreira desses oito mestres e que alguns são bastante difíceis de se encontrar.

• O Demonstrador Quadridimensional – Murray Leinster: não conhecia o autor e fiquei impressionada com a breve sinopse (onde é dito que ele é o criador do fundo projetado, ou “fundo azul”) e o quanto é engraçado o conto. É sobre um herdeiro que recebe uma máquina capaz de buscar uma cópia de qualquer ser ou objeto no passado. Envolve um número variável de dançarinas, moedas de 25 cents e cangurus amigáveis.

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O OUTRO LADO DA NOTÍCIA


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    O OUTRO LADO DA NOTÍCIA

Até que ponto as notícias reais podem inspirar a literatura? Em tempos, a literatura vem  conquistando adeptos; por outro lado o jornalismo está perdendo a credibilidade, e neste jogo de poderes, toda e qualquer indagação sobre a veracidade dos fatos narrados são irrelevantes em razão das próprias sensações despertada no leitor diante de um estilo tão provocativo como é o próprio jornalismo literário. Aliás, ótimas referências não faltam, é justamente nessa passada que o O outro Lado da Notícia abre as lentes-da-verdade para a abordagem de um quotidiano tão nosso, é dessa capacidade assombrosa que a nossa realidade (processada através da leitura) se reinventa.

Ainda que a antologia de contos tenha sido lançada em Setembro de 2016, este livro merece uma leitura atenciosa, pois tanto ele vem se refazendo no intenso processo de validação junto com os acontecimentos do nosso dia a dia, quanto pelo…

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A pobreza do mal – Theodore Dalrymple


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I.

A única causa inquestionável da violência, tanto política como criminosa, é a decisão pessoal de a cometer. (Excluo aqueles casos raros nos quais está em jogo uma malformação neurológica ou distúrbio fisiológico). Deste modo, qualquer estudo sobre a violência que não leve em conta os estados de espírito é incompleto e, na minha opinião, seriamente insuficiente. É Hamlet sem o Príncipe.

Evidentemente, os estados de espírito têm também suas causas. Mas a procura por causas remotas ou supostamente últimas constitui freqüentemente o meio pelo qual evitamos a consideração de causas próximas, sempre inconvenientes ou desconcertantes. Tentamos esvaziar o mundo do seu conteú- do moral atribuindo tudo a forças impessoais que, naturalmente, só nós, espertos como somos, podemos remediar – logicamente, tão logo nos dêem o poder para tal.

Ironicamente, contudo, o hábito de se enxergar pessoas como exemplos de abstrações políticas ao invés de se olhar para a sua realidade concreta como indivíduos foi umas das causas mais poderosas da assustadora violência política do século passado. Matar um inimigo em virtude da raça ou classe à qual pertence é mais fácil do que matar o Sr. Smith ou o Sr. Jones. A própria extensão do massacre servia para assegurar àqueles que o cometiam de que estavam a serviço de algum propósito mais elevado, pois, caso contrário, jamais teria sido levado a cabo.

II

Meu interesse pelas causas da violência, se não foi de todo extenso em minha vida, ao menos tem sido bastante intenso. Por inúmeros anos, viajei por países fustigados pelo flagelo de guerras civis, inclusive na América Latina. Foi na América Central e do Sul que aprendi aquilo que talvez tivesse sido uma conclusão óbvia extraída dos livros de história, particularmente a da Rússia do séc. XIX, de que a violência política prolongada não é a expressão espontânea da frustração, da pobreza ou da revolta contra a injustiça, por mais gritantes que sejam, mas sim de disputas entre elites que competem entre si e entre facções ansiosas por se tornarem uma delas. Quanto à explicação das causas da revolta, muito mais importante do que as condições econômicas dos países foi a rápida expansão das universidades para além da capacidade da economia nacional de empregar os serviços dos jovens segundo o patamar a que eles julgavam ter direito com base no seu nível de educação. Revoltas violentas emergem não da miséria, mas do orgulho e da importância autoconferida, e depois frustrada.

Em nenhum outro lugar o papel das universidades no estímulo à violência foi melhor e mais catastroficamente ilustrado do que no Peru. De todos os movimentos de guerrilha latino-americanos que conheci, o Sendero Luminoso foi de longe o pior, e incomparavelmente o mais brutal. Vi certas coisas em Ayacucho, no auge da insurreição, que me convenceram de que, caso o Sendero não fosse desmantelado, o Peru se tornaria o próximo Camboja, e isso numa escala muito mais assustadora. De fato, a ambição do Sendero era levar o Ano Zero de Pol Pot ao mundo inteiro.

O Sendero não surgiu de uma revolta espontânea de camponeses oprimidos desde tempos imemoriais, como muitas vezes foi pintado, mas foi sim um filhote intelectual do professor de filosofia Abimael Guzmán (que tinha escrito sua dissertação sobre Kant), da Universidade de Ayacucho. Um maoísta insano que não hesitou em criar um culto absurdo da sua própria personalidade – vindo a ser celebrado por seus sectários como o “Presidente Gonzalo” –, Guzmán arregimentou seus primeiros recrutas entre os próprios discípulos. Era preciso um forte descolamento da realidade para que os estudantes tivessem se comportado da forma como se comportaram; coisa que foi proporcionada por uma aceitação acrítica das abstrações maoístas.

A Universidade de Ayacucho, que tinha encerrado as suas atividades no séc. XIX, foi reativada na segunda metade do séc. XX pelo governo peruano numa tentativa de estimular o desenvolvimento econômico numa região empobrecida, segundo os padrões do país. Ao invés disso, essa iniciativa provocou o terror num patamar raramente atingido em outros lugares, e uma bestialidade tão pavorosa, que até hoje tento afastar de minha memória aquelas cenas.
III

Em seguida fui para a Libéria, um país cujas frágeis infraestruturas e instituições foram completamente devastadas numa guerra civil supostamente conduzida em nome da justiça social e política, embora fosse a evidente expressão de uma vontade nua e crua de poder, bem como de enriquecimento ilícito. A história do país na década anterior fora um mergulho num caos e numa anarquia ainda maiores, no curso da qual um oitavo da população foi aniquilada, sendo cada uma das suas etapas acompanhada pela retórica dos propósitos mais elevados.

Conheci pessoalmente um dos líderes do último estágio enquanto estava na Monróvia[1]. Ele assinava como “Marechal de Campo Brigadeiro General Prince Y. Johnson”, e fui aconselhado a falar com ele pela manhã, já que pela tarde ele costumava tomar a sua arma automática e, sob influência do álcool e da maconha, sair atirando nas pessoas mais ao menos ao acaso. Johnson me disse que gostaria de se tornar, ao fim da guerra, um pregador religioso. Discorreu ainda sobre a necessidade de “eleições livres”, “justiça social” e assim por diante.

Um pouco depois, assisti a um conhecido vídeo de Prince Y. Johnson. Não foi fácil, já que na época não havia fornecimento de energia elétrica na Monróvia, uma vez que a usina fora destruída (assim como os bancos, as lojas, as escolas, a universidade e todo o resto). Todavia, consegui acesso a um dos geradores privados ainda em operação e a um projetor de vídeo. O que vi serviu para colocar em alguma espécie de contexto as aspirações e altos propósitos de Johnson.

Prince era o líder da facção que havia capturado o presidente anterior, Samuel Doe. O próprio Doe fora o líder dos soldados que haviam eliminado o seu predecessor, William Tolbert, matando-o brutalmente, bem como todos os membros do seu governo. Nos anos seguintes, Mestre Sargento Doe, com uma aparência algo manca e faminta, transformou-se no suave e gordo Dr. Samuel K. Doe (tendo-lhe sido concedido um doutorado honoris causa por uma universidade sul-coreana, como retribuição pelas concessões de direitos de exploração madeireira na floresta da Libéria – uma confirmação, se acaso fosse preciso, do grande dictum do mais tarde Marechal Mabuto Sese Seko, segundo o qual são precisos dois para que se possa falar em corrupção).

No vídeo Prince Y. Johnson – aquele da “justiça social” e das “eleições livres” – senta-se junto a uma escrivaninha enquanto bebe algumas latas de cerveja diante de Samuel Doe nu e acorrentado no chão. Entre um gole e outro, exige de Doe os números das suas contas bancárias em Londres; e quando este nega que tenha qualquer dessas contas, ele ordena ao seu assistente que tome uma faca e corte as orelhas de Doe a fim de encorajá-lo a falar.

Doe, deposto em nome da democracia e da justiça social, foi torturado até à morte por hemorragia.

Foi na Libéria que eu descobri o quão poderosa e irrestrita pode ser a revolta contra a civilização. É claro que eu tinha lido sobre essas coisas nos livros; minha mãe fora uma refugiada da Alemanha nazista. Mas não acreditamos realmente em algo até que o tenhamos visto com nossos próprios olhos; ou melhor, nada tem o mesmo impacto do que aquilo que vemos com eles.

A Libéria, antes da queda dos presidentes Tolbert e Doe era sem dúvida atrasada e primitiva em vários aspectos, mas não em todos. O hospital principal da capital, por exemplo, realizava nessa época cirurgias cardíacas com o coração exposto; um tipo de procedimento que requer uma infraestrutura altamente confiável e sofisticada. No tempo em que fui visitá-lo, entretanto, já estava completamente destruído, como todos os demais hospitais do país. Não falo de bombas ou morteiros; as estruturas estavam intactas. Delinqüentes, na verdade, tinham-no percorrido de cima a baixo, destruindo sistematicamente cada um dos equipamentos, do primeiro ao último, de modo a incapacitar seu funcionamento e eliminar qualquer possibilidade de reparo. O trabalho despendido nessa destruição foi considerável, e realizado sem nenhum outro objetivo que não fosse a própria devastação; a roda de cada uma das macas foi cuidadosamente serrada, e isso com um grau de atenção ao detalhe que teria sido absolutamente admirável caso se tratasse de uma tarefa de maior valor. E nada foi roubado: os restos de cada peça dos equipamentos foram mantidos no mesmíssimo lugar, como se fosse uma advertência dirigida a quem quer que pretendesse reavivar a instituição de que seus esforços seriam inúteis – pois o anjo da destruição retornaria.

IV

Resisti à conclusão de que essa revolta simbólica contra a civilização fosse algo peculiar ou exclusivo da África, o resultado de uma estrutura mental primitiva ou carente de sofisticação intelectual. Em primeiro lugar, jamais notei tal carência nos anos em que vivi por lá; o atraso em termos materiais nunca é um sintoma de atraso mental. E, além disso, uma leitura dos livros do jornalista francês Jean Hatzfeld sobre o genocídio na Ruanda bastaria para fazer desmoronar essa idéia.

Hatzfeld apresenta em seus livros entrevistas com grupos que sobreviveram ao genocídio e também com grupos responsáveis por ele. Posteriormente, ele os entrevistaria mais uma vez após estes últimos terem sido liberados da prisão e mandados de voltas às suas cidades lado-a-lado com seus vizinhos, aqueles que mesmos que antes tinham tentado exterminar. É difícil pensar em algo mais terrível de se narrar.

Mas os entrevistados dos livros de Hatzfeld falavam sobre o que tinham sofrido e realizado de modo eloqüente, e com uma sofisticação intelectual muito maior do que a que se espera de um cidadão médio em meu próprio país. Qualquer que tenha sido a causa do genocídio de Ruanda, não é possível se falar em incapacidade intelectual por parte dos cidadãos ou em uma simplória falta de noção do que estava em jogo em termos morais.

Um primatologista contou-me certa vez que 40% da discrepância entre países no que diz respeito ao nível de violência era atribuível a diferenças na taxa de crescimento populacional. Quanto maior o crescimento da população, maior a disseminação de violência política e criminosa. E, certamente, o crescimento populacional em Ruanda foi surpreendente: cada mulher dava à luz, em média, a nove crianças – e isso contando-se só as sobreviventes.

Todavia, esta explicação tão abstrata está muito longe de dar conta do que de fato aconteceu em Ruanda. Qualquer um que leia os livros de Hatzfeld não tem como não se espantar com a expansiva e prazenteira maldade dos criminosos, os quais, depois de um duro dia de chacina, costumavam festejar e dançar, antes de ir dormir alegremente exaustos. Eles estavam passando, literalmente, os melhores dias das suas vidas.

As barreiras civilizacionais normais tinham sido demolidas, e os preconceitos em favor do comportamento minimamente decente superado (quantas vezes não nos esquecemos de que os preconceitos, com a mesma freqüência com que nos impedem de ser civilizados, também nos mantêm civilizados). Talvez a civilização não passe mesmo de uma fachada que recobre nossa verdadeira natureza, como tantas vezes tem sido acusada; mas isso só faz dela algo mais, e não menos, essencial.

V

Após passar alguns anos vagando por guerras civis, retornei ao meu país, a Inglaterra, para exercer a medicina num hospital localizado num bairro pobre, e também na grande penitenciária que havia ao lado. O que descobriria nos próximos quinze anos alarmou-me mais do que qualquer coisa que tenha observado nos países assolados pela guerra pelos quais passei.

Até o meu retorno, tinha conservado uma visão levemente cor-de-rosa sobre meu país. O General de Gaulle começou as suas memórias com essa frase prosaica “toute ma vie, je me suis fait une certaine idée de la France” – toda a minha vida fiz uma certa idéia da França – mais especificamente uma idéia de glória e grandeza, de um país que era uma luminária para o mundo no que se refere a todas as artes da civilização. Bem, de certo modo eu fazia uma certa idéia da Inglaterra: de um país exemplar em matéria de civilidade, cujos habitantes mantinham uma visão intrinsecamente irônica da vida, o que lhes permitia agir com um louvável auto-controle. O que eu descobri foi precisamente o oposto.

Nos anos que se seguiram ao meu nascimento (ao qual não atribuo, é claro, nenhuma significância causal nessa matéria), meu país deixou de estar entre as nações mais civilizadas e livres do crime no mundo ocidental, para estar entre as mais inseguras e ameaçadas por ele. É como se, nesse intervalo, a população tivesse experimentado uma mudança radical de gestalt: o que era visto como bom era agora mau, e vice-versa. O auto-controle passou a ser visto como mera hipocrisia e (o que é muito pior) uma traição ao próprio eu. Uma visão sub-freudiana das conseqüências do controle sobre nossos desejos tinha tomado conta das pessoas. Não se acreditava mais que desejos arbitrários cresceriam a medida que fossem excitados; mas que, como um fluido num recipiente fechado, não podiam ser comprimidos, tendo de ser libertados de um modo ou de outro.

VI

Essa mudança de atitude ocorreu sem dúvida lentamente. Lembro-me, por exemplo, de um debate nos anos 70 sobre as conseqüências para o comportamento social do aumento crescente do nível de violência em programas de televisão. Os participantes dividiram-se em dois grupos principais: aqueles que acreditavam que a violência cada vez maior na televisão e no cinema seria imitada na vida real, com um correspondente crescimento da violência; e aqueles que, ao contrário, pensavam que isso teria efeitos catárticos, levando a uma queda nos níveis de violência na realidade.

De acordo com o primeiro grupo, aqueles que assistiam ininterruptamente a uma série de filmes ou programas de televisão violentos acabariam mais inclinados a cometer atos de violência. De acordo com o segundo, por sua vez, essas mesmas pessoas ficariam, pelo contrário, menos inclinadas a isso. Sua justificativa era que dentro de cada pessoa haveria um potencial fixo ou uma certa quantidade de violência concentrada, a qual tinha de ser descarregada tal qual eletricidade estática, fosse virtualmente pela imaginação, fosse realmente pelas vias de fato. Se a violência fosse descarregada pela imaginação, haveria conseqüentemente menos violência na realidade.

No debate, acabei por me alinhar instintivamente, e sem dúvida a partir de fundamentos inadequados, com a primeira escola de pensamento. Em minha época de estudante, havia visto o filme de Stanley Kubrick baseado no livro de Anthony Burgess, A laranja mecânica, e ficara horrorizado ao me deparar, fora das salas de cinema, com alguns jovens vestidos como o gratuitamente violento protagonista do filme. Não sei se esses rapazes chegaram alguma vez a cometer realmente um ato de violência, mas o simples fato de terem achado aquele personagem tão brutal uma figura atraente e digna de imitação era já algo suficientemente assustador. O bom senso sugeria naturalmente que era muito mais provável que aquela admiração gerasse a violência do que a inibisse.

Essa experiência, mesmo sendo uma evidência tão precária, inclinou-me psicologicamente a aderir à primeira (e mais cautelosa) linha de pensamento sobre o problema. Mas na verdade, até onde sei, as evidências indicam que as representações de violência na tela não levam de modo algum pessoas adultas normalmente pacíficas a se tornarem violentas. Todavia, crianças que crescem desde os primeiros anos expostas diariamente a uma boa dose destas representações ficam muito mais inclinadas – apenas estatisticamente, e não em todos os casos – a adotarem um comportamento violento. Em sociedades no seio das quais, fosse por seu isolamento ou por qualquer outro motivo, a televisão foi introduzida em um estágio comparativamente tardio, verificou-se que os índices de violência não subiram imediatamente, mas dez anos depois; justamente no momento em que a primeira geração de crianças expostas a ela atingia a idade na qual se tornaram capazes, sem dúvida por razões biológicas, a cometer atos violentos.

Na Inglaterra, certamente as águas desse debate tornaram-se turvas em razão do problema da censura. Pois os liberais intuíram instintivamente que, caso ficasse provado que a violência nas telas acarretava de fato a violência na vida real, surgiria uma forte demanda pela censura. Diante desse risco, eles passaram a empregar um imenso esforço intelectual tentando negar as evidências que apontavam numa única direção – embora de fato estivessem longe de serem totalmente conclusivas. Esqueciam-se de que o fato de a violência nas telas efetivamente promover, segundo as estatísticas, a violência na vida real, não implica necessariamente que a censura seja a única solução; assim como do fato de que o álcool cause cirrose no fígado (com muito mais certeza do que a correlação entre as telas e a violência), não se segue que ele deva ser proibido. Poucos fins são tão desejáveis a ponto de justificarem o uso de quaisquer meios; e, do ponto de vista lógico, é perfeitamente possível aceitar que a violência nas telas leve à violência na vida real e ainda assim recusar o uso da censura, ao menos pelo poder público. Afinal de contas, os remédios se revelam com freqüência muito piores do que a doença.

VII

Uma nova versão desse debate surgiu com a retomada da psicologia evolucionista ou darwiniana. Segundo esse ponto de vista, em poucas palavras, nós, enquanto espécie, utilizamos a violência para preservar e promover a disseminação dos nossos genes. Isso explicaria, por exemplo, porque há uma tendência muito maior ao abuso e assassinato de crianças por seus padrastos ou madrastas do que pelos pais biológicos. Padrastos que assassinam seus enteados seriam como os leões que, ao se tornarem machos dominantes de seu respectivo grupo, matam os filhotes do antigo macho alfa. O novo leão não tolera – ou melhor, os seus genes não toleram – que a Dona Leoa desperdice as suas energias maternais promovendo ou disseminando os genes de outro leão em prejuízo das chances de sobrevivência e crescimento da sua própria prole. Isso valeria para os padrastos humanos em geral: eles não aceitariam que a mãe dos seus filhos biológicos atuais ou futuros se dedicasse a cuidar dos filhos de outro homem; e tampouco aceitariam gastar as suas energias com uma tarefa tão contraproducente do ponto de vista dos seus próprios genes.

É desnecessário dizer, entretanto, que tal hipótese – por mais atraente que possa ser para aqueles que, como alternativa às concepções de Marx e Freud, buscam uma explicação total e definitiva para o comportamento humano – jamais será suficiente para explicar a variação, no tempo ou no espaço, das taxas de violência homicida contra crianças. Não explica, por exemplo, porque a maioria dos pais adotivos não mata ou abusa de seus filhos não-biológicos, embora, segundo essa concepção, isso devesse ocorrer com maior freqüência do que no caso dos pais biológicos. Tampouco explica porque a relação entre padrasto e filho, antes rara na Inglaterra, tenha se tornado tão comum nas últimas décadas. Quando eu nasci, menos de 5% dos nascimentos procedia de pais não casados; agora a taxa é de 42%, e segue crescendo. É provável que pelo menos 40% das crianças britânicas de hoje passem, ao menos em algum período da infância, pela experiência de morar com um pai ou mãe solteiros, ou casados com outros parceiros (ou, evidentemente, ambos ao mesmo tempo). Certamente, hoje em dia é mais comum que crianças britânicas tenham uma televisão em seus quartos do que um pai em suas casas: com efeito, há duas vezes mais crianças britânicas (36%) que nunca desfrutam de uma refeição com outros membros da família, do que crianças que não têm um televisor em seus quartos (21%). Esses desdobramentos recentes, bem como o correlato crescimento do número de paternidades putativas (envolvendo padrastos e madrastas), dificilmente podem ser explicados pela psicologia evolucionista; a não ser que se valham do tipo de ação de retaguarda intelectual tal como a usada pelos astrônomos que queriam preservar a todo custo o sistema ptolomaico contra o desafio copernicano.

VIII

Seja como for, fiquei chocado, e bastante perturbado, com o nível de violência que descobri entre os meus pacientes na Inglaterra. Tal violência não era de modo algum uma resposta ao desespero econômico, ao menos em nenhum sentido muito óbvio ou direto, como a fome ou a falta de moradia. A carência total de meios materiais, do tipo que meu pai presenciou na zona leste de Londres durante e logo após a Segunda Guerra, já havia sido completamente erradicada na época. De fato, meus pacientes, embora relativamente pobres segundo os padrões médios da sociedade em que viviam, tinham acesso a confortos e comodidades que teriam feito Luís XIV perder o fôlego de surpresa e admiração. (Realmente não há modo melhor de avaliar o progresso material conquistado por nós do que considerar as doenças e o tratamento médico de gente como Felipe II da Espanha, Luís XIV da França e Carlos II ou George III da Inglaterra. Quase ninguém, nos dias de hoje, sofre as agonias experimentadas por esses monarcas ou as atrocidades a que foram submetidos pelos médicos da época). Mas essa era uma consolação inútil para meus pacientes, que se comparavam não a Luís XIV, mas aos seus contemporâneos ricos.

O desespero nas sociedades contemporâneas não é absolutamente um estado psicológico que possa ser explicado pelo desconforto ou pela frustração de quaisquer necessidades materiais. Há muito se sabe que nas sociedades ocidentais o suicídio é tão freqüente nas classes sociais mais altas quanto nas mais baixas. Hoje em dia, não só as classes baixas não sofrem, como outrora, carência em nível calamitoso, como também as mais altas não são minimamente afetadas por ela. Assim, nas sociedades modernas, é impossível sustentar que o desespero e a angústia estejam diretamente relacionados às circunstâncias econômicas.

Entretanto, o desespero desolador dos meus pacientes – entre os quais contavam-se tanto vítimas como autores de violência doméstica – estava fora de qualquer dúvida. Devo observar que examinei entre 10 e 15 mil casos de tentativa de suicídio, envolvendo graus variáveis no que diz respeito à vontade de morrer. A cada ano, procuravam-me mais ou menos 400 mulheres que tinham sido espancadas pelos seus parceiros, e por volta de 400 homens que tinham acabado de espancar suas parceiras. Era também consultado por um número cada vez maior de mulheres que tinham cometido atos violentos – mais de cem por ano. De fato, a violência por parte das mulheres aumentava rapidamente. É como se elas estivessem determinadas a provar que eram iguais aos homens em tudo… até na violência.

A minha amostragem do material humano inglês era, evidentemente, peculiar; mas estava longe de ser pouco numerosa. Cada paciente contava-me não só coisas sobre a sua própria vida, mas também sobre as vidas de quatro ou cinco pessoas conhecidas. Em todo esse tempo no qual trabalhei no hospital, devo ter ouvido sobre as vidas de pelo menos 5 a 10% das pessoas que viviam numa cidade de um milhão de habitantes. Uma vez que havia outros dois hospitais muito parecidos com o meu na cidade, nos quais números similares de tentativas de suicídio eram tratados, pode-se concluir razoavelmente que as histórias que me eram contadas representavam as vidas de algo em torno de 15 a 30% de sua população. E isso constituía um número mínimo, porque evidentemente nem todos os que eram tratados tinham um parente próximo ou amigo que tivesse tentado o suicídio. Em outras palavras, a violência estava de fato se alastrando amplamente.

Havia também outras razões para se supor que ela estava crescendo. O número de pessoas que tomavam overdoses tinha aumentado, enquanto a população mantinha-se mais ou menos estável; o número de homens que haviam ingerido overdoses crescera de modo particularmente rápido, tanto absoluta quanto relativamente. Quando comecei a trabalhar no hospital, mais mulheres do que homens tomavam overdoses; quando saí era o contrário.

Os homens que tomavam overdoses eram predominantemente jovens, e mais ou menos um quarto deles tinha acabado de cometer violência contra suas namoradas. É claro que a intensidade dessa violência variava, mas normalmente tratava-se de algo suficientemente assustador, fato confirmado pela natureza das histórias contadas pelas vítimas. Além disso, os jovens que cometiam violência contra suas namoradas eram também freqüentemente violentos no trato com outras pessoas: sua violência era fruto de uma propensão geral.

Não desenvolvi nenhuma espécie de tipologia formal baseada nesses atos, mais eis uma pequena amostra: estrangulamento, muitas vezes até a perda de consciência; chutes no estômago com a finalidade de provocar abortos; arrastar a mulher no chão pelos cabelos; bater a sua cabeça contra uma janela e mesmo através dela; trancafiá-la num armário por um dia inteiro; queimá-la com cigarros acesos; esmurrá-la repetidamente no rosto; ameaçar jogá-la de uma sacada situada muito alto (um homem chegou inclusive a suspender sua namorada pelos tornozelos da sacada do décimo primeiro andar).

IX

Assim, das duas uma: ou essa violência estava se tornando mais freqüente, ou era o hábito de se tomar overdoses após praticá-las que aumentava. A primeira hipótese parece mais provável. Mas porque essas pessoas tomavam overdoses depois de se comportar dessa maneira?

Haviam três razões principais para isso. A primeira, e menos freqüente, era que, depois da mulher violentada apresentar uma queixa à polícia, o seu parceiro tomava uma overdose a fim de deixar claro que ele sofria de algum desequilíbrio, psicológico ou fisiológico, coisa que ajudaria a provar sua inocência caso o inquérito chegasse à Justiça.

A segunda razão era um pedido de perdão dissimulado à mulher agredida, que ameaçava deixá-lo. Era dissimulado porque, como veremos adiante, a sua violência era deliberada, astuta, calculada e propositada. Contudo, as desculpas fingidas muitas vezes eram bem-sucedidas. Elas sempre traziam um componente de chantagem emocional: “Se você me deixar eu me mato e você jamais será capaz de se perdoar por isso”.

A terceira razão era talvez um pouco mais sutil. A maioria das pessoas desejam ter uma boa imagem de si para si mesmas. Elas aceitam implicitamente a visão de Rousseau (sem nunca ter ouvido falar em Rousseau, é claro, já que a influência intelectual é muitas vezes indireta), segundo a qual o homem nasce puro e bom, mas as influências perturbadoras do meio social acabam por pervertê-lo. Tomando uma overdose e recebendo atenção médica, o homem violento encontra os meios de se persuadir a si mesmo de que não há nada errado com ele – pois caso contrário ele não teria tomado uma overdose –, e de que ele é, na verdade, a maior vítima da sua própria conduta. Ao mesmo tempo, sendo a mente humana um instrumento complexo e contraditório, ele sabe perfeitamente bem que continuará a cometer os mesmos atos violentos já que eles servem aos seus propósitos.

Pessoas assim buscam apresentar a sua violência como uma espécie de enfermidade neurológica incontrolável, um pouco como um ataque epilético. Seriam, assim, incapazes de evitá-la: “ela simplesmente toma conta de mim”, como dizem sempre. Estranhamente, trata-se de uma idéia que a própria mulher agredida tende a abraçar de forma entusiástica. Ela prefere não acreditar que o homem a quem ama, ou que crê amar, seja de fato um perverso que age por pura maldade; que a sua imagem dele era uma mentira, e seus critérios suspeitos. Deseja continuar ao lado do homem que a espancou, desde que ele passe por um tratamento. Assim, ela joga o jogo de faz-de-conta de seu parceiro, fingindo, como ele, que tudo é decorrência inevitável de algum distúrbio clínico do qual é inocente.

Participei de conversas como a seguinte talvez milhares de vezes:

Mulher agredida: Ele precisa de ajuda, doutor.

Eu: Que tipo de ajuda?

Mulher agredida: Algo toma conta dele. Os seus olhos ficam estranhos, e é como se ele não estivesse mais lá. Ele não consegue se controlar, doutor, ele me bate… me estrangula… dá socos…

Eu: Diga-me uma coisa: por acaso ele faria isso na minha frente?

Esta única perguntinha, bastante simples e óbvia, tem muitas vezes a força de uma epifania para a mulher agredida. Como a resposta é obviamente “não”, a conclusão inescapável é que o parceiro é de fato perfeitamente capaz de se controlar e simplesmente opta por não fazê-lo. Deste modo o auto-engano da mulher acaba por se revelar repentinamente nesse diálogo. Trata-se de um momento sem dúvida desconfortável para a mulher violentada, pois, em primeiro lugar, ninguém gosta de se ver exposto às suas próprias mentiras, mas, sobretudo, porque isso transfere do médico para ela mesma o ônus da responsabilidade por tomar alguma atitude em relação ao problema, e a obriga a fazer uma escolha nua e crua entre duas alternativas, ambas inevitavelmente dolorosas: aceitar o parceiro como ele é ou simplesmente abandoná-lo. Ao mesmo tempo, a dissolução do mecanismo de auto-engano é experimentada como um alívio; é como se um fardo fosse subitamente tirado dos seus ombros, pois com algum grau de consciência é certo que no fundo sempre soube que estava contando uma mentira para si mesma. Manter um fingimento é um trabalho árduo, e para se dissimular uma mentira é necessário um grande dispêndio energia – especialmente quando se trata de mentir para si mesmo. Mas então a mulher torna-se capaz de ver o absurdo do seu auto-engano, bem como de rir dele.

X

De modo igualmente tortuoso, o agressor sabe perfeitamente bem que não se sente culpado pelo que fez, que só está fingindo a vontade de superar o seu problema, e que, na realidade, pretende continuar a se comportar exatamente como antes. Mas porque ele age assim? Quais possíveis vantagens aufere através da sua conduta violenta?

Em primeiro lugar há o amor puro e simples pela crueldade em si mesma: é prazeroso, ao menos para algumas pessoas, causar sofrimento a outras. Mas mais importante é entender a natureza do desejo sexual tal como se manifesta na Inglaterra contemporânea.

Todas as pessoas – e particularmente os homens – buscam conquistar, por um lado, uma liberdade sexual absolutamente irrestrita e, por outro, a exclusividade total da posse sexual sobre outra pessoa. Não é difícil ver como esses dois desejos completamente incompatíveis, quando disseminados massivamente por uma população (como de fato vem ocorrendo na nossa), levam à violência e a um caos incontrolável. Pois se um homem é deliberadamente um predador sexual; se, por exemplo, sua namorada atual foi “roubada” de seu melhor amigo – um padrão recorrente, diga-se de passagem –, ele naturalmente acreditará que cada um dos outros homens age do mesmo modo, e que, portanto, todos eles representam uma constante ameaça a ele e à sua masculinidade. Ele será totalmente incapaz de confiar em alguém; sequer em seus assim chamados “amigos”. Isso explica porque os infiéis incorrigíveis são também, com freqüência, ciumentos mórbidos. Explica também o motivo pelo qual tantos casos de violência doméstica começam com um homem olhando diretamente para a mulher de outro em algum bar ou casa noturna. O sujeito acredita que está sendo desafiado diante de sua mulher, a qual estaria sendo cogitada por outro como uma possível parceira sexual. O fato de que em outras circunstâncias ele se comporte exatamente do mesmo modo só faz aumentar ainda mais a sua indignação.

Nada disso importaria muito se a exclusividade da posse sexual não fosse tão importante para esses homens – mas o problema é que ela é. Eles não são sutis o suficiente para disfarçar o seus instintos predatórios, mantendo-os em segredo; o velho hábito de lançar um véu sobre eles, e de disfarçá-los como se fossem alguma outra coisa, subitamente desaparece. Uma irrupção crua leva instantaneamente à violência real.

Uma das maneiras que um homem que vive em tais ambientes tem de assegurar a exclusividade da posse sexual sobre sua mulher, ao menos até o momento em que ela o deixe definitivamente, é ameaçá-la com agressões arbitrárias e imprevisíveis. O homem que vê em todos os outros um possível predador sexual será, decerto, extremamente ciumento e possessivo; e usará a suposta inclinação à infidelidade da parte de sua mulher como um pretexto para agredi-la. Ela, que é inocente dessas acusações, emprega uma quantidade enorme de tempo e energia mental tentando provar essa inocência – o que, evidentemente, não pode ser feito, já que, para começo de conversa, no fundo ele não acredita realmente nessa culpa – e impedir a todo custo os acessos de cólera do parceiro. Sendo esses acessos completamente arbitrários, ela nada pode fazer para evitá-los: eles são exercícios de profilaxia e não de punição. Uma mulher que está constantemente preocupada com uma agressão iminente e com os meios de impedi-la é incapaz de olhar para qualquer outro homem. Pelo contrário; os seus pensamentos estão incessantemente concentrados no homem que a agride ou violenta – e é precisamente isso o que ele quer. A sua violência pode portanto ser arbitrária, mas não é, como se vê, de todo desprovida de propósito.

Antes que eu passe a considerar as razões pelas quais a exclusividade da posse sexual sobre outro tornou-se algo tão importe numa sociedade que, contraditoriamente, disseminou tão abertamente a liberdade sexual, permitam-me uma brevíssima digressão a fim de mostrar mais uma vez que, infelizmente, o homem é constituído de tal forma que o domínio sobre os outros lhe é extremamente gratificante. A partir do momento em que as barreiras e limites desmoronam, todo um mundo de prazer sádico irrompe; essa é precisamente a razão pela qual as multidões excitam tanto os seus participantes, e pela qual a conservação dessas mesmas barreiras e limites é uma missão tão fundamental para a sociedade. Um dos aspectos mais horripilantes das fotografias tiradas na prisão de Abu Ghraib era o prazer evidente saboreado pelos agressores. Mesmo que o gozo do sadismo não seja universal entre os homens, ele é suficientemente comum e arraigado para, dadas as condições propícias, disseminar o inferno sobre a Terra. Uma tese minha, embora fundada num argumento um pouco diferente, é que foi a política social liberal inglesa, difundida por muitos anos de propaganda liberal, aquilo que permitiu, numa parcela tão grande do país, o desenvolvimento e a infestação de tal inferno.

XI

Agora voltemos à questão das razões pelas quais a exclusividade da posse sexual de outrem é tão importante para tantos jovens que, paradoxalmente, não acreditam em qualquer espécie de restrição à sua própria liberdade. A resposta não tem, evidentemente, nada a ver com o amor – a não ser que seja amor ao próprio ego. O ciumento não ama o objeto do seu ciúme, mas a idéia do seu poder e da sua posse sobre ele.

Nesse ponto, vale a pena refletir sobre três características da sociedade ocidental moderna, da qual é exemplo a britânica. Em primeiro lugar, ela é altamente desigual num ambiente cultural no qual a igualdade é tida como a única base ética da sociedade, sendo de fato o critério absoluto do qual se vale para testar a legitimidade moral. Em segundo, ela é meritocrática, tanto na sua auto-imagem como no fato de que não há nenhuma barreira legal para que uma pessoa ascenda socialmente (ou desça, é claro, mas poucas pessoas se preocupam com esse corolário). Na verdade, essas barreiras legais são inclusive proibidas pelo sistema jurídico. Em terceiro e último, ela é grosseira e cruamente materialista: ou seja, tanto o sucesso como o fracasso são medidos quase que exclusivamente em função das posses materiais, ou pela capacidade de uma pessoa de adquiri-las. É por isso que entre os jovens da zona na qual eu trabalhava havia uma intensa preocupação em usar roupas de marca com logotipos visíveis, cuja posse conferia status, e cuja ausência significava inferioridade. Tive conhecimento de um caso de disputa entre jovens envolvendo o status relativo a uma marca dos tênis usados por um deles, a qual começou com insultos e terminou em assassinato. Nunca o dictum de Freud – e eu não sou freudiano – sobre o narcisismo envolvendo minúsculas diferenças manifestou-se tão clara e tragicamente.

Esses jovens tão violentos procediam de camadas sociais mais baixas do ponto de vista econômico e educacional. Eles tinham poucas chances de sucesso real por não possuírem nem as habilidades nem os talentos necessários para tanto. O seu estado psicológico era uma mistura altamente inflamável: de revolta e ressentimento, por um lado, em razão da frustração de direitos derivados do igualitarismo – o fundamento exclusivo das nossas concepções de justiça –; e, por outro, da consciência do fracasso pessoal e de inadequação, uma consciência excitada pela natureza meritocrática da sociedade. Numa sociedade meritocrática, afinal de contas, o sucesso é merecido: o corolário disso é que o fracasso é igualmente merecido. E quando a posse material é o único critério de sucesso, aqueles que têm poucas posses (ainda que algumas delas tivessem sido suficientes para deixar o Rei Sol maravilhado) são tidos por homens fracassados. Mas homens fracassados com excesso de testosterona.

Uma compensação por esse fracasso só pode ser procurada em outro lugar, em um campo diverso. O controle absoluto sobre uma mulher compensa a total ausência de controle em outras esferas das suas vidas. Um jovem pode não valer nada a partir do momento em que põe o pé fora de casa (embora tente provar aos outros com a sua jactância e o seu andar malicioso que vale alguma coisa), mas dentro do lar ele é mais poderoso do que Stalin. Pela sua violência, ele se torna, ao menos para uma pessoa, todo-poderoso.

A sua violência é genérica, entretanto, e só pode ser inibida pela presença de pessoas mais fortes, mais capazes de a exercer do que ele. Em parte, essa violência se deve também à sua educação. Numa situação de colapso social generalizado, a disciplina nunca se funda sobre princípios, sobre aquilo que em geral é tido por correto praticar. Ela depende, na verdade, do ânimo arbitrário e momentâneo de pessoas que são fisicamente mais poderosas do que o indivíduo, e do que ele é capaz de fazer em tal situação. Nessas circunstâncias, todas as relações humanas se convertem em relações de poder, como na questão de Lênin colocada em forma sintética: “Quem para quem?”; ou seja, quem faz o que para quem? E um poder desse tipo constitui um jogo de soma zero: o poder de um homem é a impotência de outro.

* * *

A violência, portanto, não é jamais uma pura e simples reação a condições sociais adversas. Não é como a chuva, que cai tão logo se verifiquem as devidas condições climáticas. E tampouco é em si mesma um sinal de injustiça social ou de uma situação política intolerável (uma prova disso é que nem sempre as sociedades pacíficas, não-violentas e isentas de crimes são locais onde o direito e a legalidade prevalecem). A violência jamais poderá ser compreendida corretamente se não levarmos em conta as idéias que as pessoas têm sobre o que é certo; o que é justo; o que é correto; o que cada um merece; quais são as conseqüências para quem a pratica; e, acima de tudo, sobre o que é realmente importante na vida. E isso prova a verdade daquele grande dictum de Pascal: esforcemo-nos para pensar com clareza, pois isso constitui o princípio da moralidade.
Theodore Dalrymple é um dos pseudônimos literários do psiquiatra inglês Anthony M. Daniels. Daniels trabalhou no Zimbábue, Tanzânia, África do Sul, Kiribati, e mais tarde no east end londrino e, até aposentar-se em 2005, em um hospital e uma penitenciária situados em uma área de cortiços de Birmingham. Tem escrito regularmente em diversas publicações inglesas e americanas sobre cultura, arte, política, educação e medicina. Publicou já várias coletâneas de ensaios e relatos de viagens, dentre os quais: Fool or Physician: The Memoirs of a Sceptical Doctor (1987), The Wilder Shores of Marx: Journeys in a Vanishing World (1991), If Symptoms Persist: Anecdotes from a Doctor (1994), Life at the Bottom: The Worldview That Makes the Underclass (2001), Our Culture, What’s Left of It: The Mandarins and the Masses (2005), Making Bad Decisions. About the Way we Think of Social Problems (2006), In Praise of Prejudice: The Necessity of Preconceived Ideas (2007), Not With a Bang But a Whimper: The Politics and Culture of Decline (UK edition; 2009).

Tradução de Julio Lemos e Marcelo Consentino.

[1] Capital da Libéria

* Publicado originalmente na Dicta&Contradicta – 4

Happy Birthday Ayn Rand


aynrand

É impossível falar em liberdade individual sem falar em Ayn Rand.

Sua leitura é uma transfusão de ânimo para todos que lutam contra a mediocridade, a hipocrisia, que ainda se indignam com a política e aqueles que buscam realizar seus sonhos de forma racional e existir verdadeiramente.

Em seus livros encontramos valores como trabalho produtivo, amor com admiração, racionalidade com emoção, individualismo com amizade, felicidade sem culpa.

“Rand explicava as coisas com uma clareza fora do comum. Escreveu, por exemplo: “Qual é o princípio básico, essencial, crucial, que diferencia a liberdade da escravidão? É o princípio da ação voluntária versus a coerção física ou por ameaças… A questão não é a escravidão por uma ‘boa’ causa versus a escravidão por uma causa ‘ruim’; a questão não é a ditadura de uma gangue ‘boa’ contra a ditadura de uma gangue ‘má’. A questão é liberdade versus ditadura… Se defendemos a liberdade, devemos defender os direitos individuais do homem; se defendemos os direitos individuais do homem, devemos defender seu direito à sua própria vida, à sua própria liberdade, e à busca de sua própria felicidade… Sem direitos de propriedade, nenhum outro direito é possível. Uma vez que o homem precisa sustentar sua vida através de seu próprio trabalho, o homem que não tem direito ao produto de seu trabalho não tem meios de sustentar sua vida.” E ela discordava dos defensores da liberdade que esperavam ganhar influência apenas com a economia de mercado: “A maioria das pessoas sabe, de uma forma vaga e incômoda, que há algo de errado com a teoria econômica marxista… A raiz da tragédia moderna é filosófica e moral. As pessoas não estão aderindo ao coletivismo porque aceitaram a má teoria econômica, elas estão aceitando a má teoria econômica porque aderiram ao coletivismo.” Cato Institute.

Para celebrar os 110 anos de seu nascimento, deixo 3 trechos de 3 livros que tiveram grande influência em minha vida, e para que possam também ser conhecidos por outras pessoas que assim como eu acredita que, o mais depravado dos seres humanos é aquele que não têm objetivos.

The Fountainhead

“O homem que tenta viver pelos outros é um dependente. Ele é um parasita na motivação e torna os que ele serve parasitas também. O relacionamento produz nada além de corrupção mútua. É impossível em conceito. A aproximação mais próxima a isso na realidade – o homem que vive para servir outros – é escravidão. Se escravidão física é repulsiva, quão mais repulsiva é o conceito de servilidade do espírito? O escravo conquistado tem um vestígio de honra. Ele tem o mérito de ter resistido e de considerar sua má condição. Mas o homem que escraviza a si mesmo voluntariamente em nome de amor é a criatura mais baixa. Ele degrada a dignidade do homem e ele degrada o conceito de amor. Mas essa é a essência do altruísmo.

Os homens foram ensinados que a maior virtude não é conquistar, mas dar. No entanto, não se pode dar aquilo que não foi criado. Criação vem antes da distribuição ou não haverá nada para distribuir. A necessidade do criador vem antes da necessidade de qualquer beneficiário possível. No entanto, somos ensinados a admirar a mão secundária que distribui presentes que não produziu acima do homem que fez os presentes possíveis. Louvamos um ato de caridade. Nos revoltamos com um ato de conquista.

Os homens foram ensinados que sua primeira preocupação é aliviar o sofrimento dos outros. Mas o sofrimento é uma doença. Se esbarrar com isso, tenta dar uma ajuda e assistência. Para fazer com que o maior teste da virtude seja fazer sofrimento a parte mais importante da vida. Então o homem tem desejo de ver os outros sofrerem, a fim de que ele possa ser virtuoso. Essa é a natureza do altruísmo. O criador não está preocupado com a doença, mas com a vida. No entanto, o trabalho dos criadores eliminaram uma forma de doença após a outra, no corpo e espírito do homem, e trouxe mais alívio no sofrimento do que qualquer altruísta poderia conceber.

Os homens foram ensinados que é uma virtude concordar com os outros. Mas o criador é o homem que discorda. Os homens foram ensinados que é uma virtude nadar com a corrente. Mas o criador é o homem que vai contra a corrente. Os homens foram ensinados que é uma virtude estarem juntos. Mas o criador é o homem que está sozinho.

Os homens foram ensinados que o ego é o sinônimo do mal, e altruísmo o ideal de virtude. Mas o criador é o egoísta no sentido absoluto, e o homem altruísta é aquele que não pensa, sente, julga ou age. Estas são funções do ego.”  Íntegra do discurso aqui em : Fountainhead Speech

atlas

A REVOLTA DE ATLAS

” Parei quando a medicina foi colocada sob controle estatal há alguns anos – contou o Dr. Hendricks. – A senhorita imagina o que é preciso saber para operar um cérebro? Sabe o tipo de especialização que isso requer, os anos de dedicação apaixonada, implacável, absoluta para atingi-la? Foi isso que me recusei a colocar à disposição de homens cuja única qualificação para mandar em mim era sua capacidade de vomitar as generalidades fraudulentas graças às quais conseguiram se eleger para cargos que lhes conferem o privilégio de impor sua vontade pela força das armas.

Não deixei que determinassem o objetivo ao qual eu dedicara meus anos de formação, nem as condições sob as quais eu trabalharia, nem a escolha de pacientes, nem o valor de minha remuneração. Observei que, em todas as discussões que precediam a escravização da medicina, tudo se discutia, menos os desejos dos médicos. As pessoas só se preocupavam com o “bem-estar” dos pacientes, sem pensar naqueles que o proporcionavam.

A ideia de que os médicos teriam direitos, desejos e opiniões em relação à questão era considerada egoísta e irrelevante. Não cabe a eles opinar, diziam, e sim apenas “servir”. Que um homem disposto a trabalhar sob compulsão é um irracional perigoso para trabalhar até mesmo num matadouro é coisa que jamais ocorreu àqueles que se propunham a ajudar os doentes tornando a vida impossível para os sãos.

Muitas vezes me espanto diante da presunção com que as pessoas afirmam seu direito de me escravizar, controlar meu trabalho, dobrar minha vontade, violar minha consciência e sufocar minha mente – o que elas vão esperar de mim quando eu as estiver operando? O código moral delas lhes ensinou que vale a pena confiar na virtude de suas vítimas. Pois é essa virtude que eu agora lhes nego.

Que elas descubram o tipo de médico que o sistema delas vai produzir. Que descubram, nas salas de operação e nas enfermarias, que não é seguro confiar suas vidas às mãos de um homem cuja vida elas sufocaram. Não é seguro se ele é o tipo de homem que se ressente disso – e é menos seguro ainda se ele é o tipo de homem que não se ressente.”

“Dificilmente uma obra irá colocar de forma tão clara e transparente o conflito entre o Estado e a iniciativa privada, uma realidade ainda atual em muitas sociedades. Em seu esforço de empreender, gerar empregos e produção, o empresário se depara com um Estado burocrático que limita suas ações. Várias obras históricas retratam essa mesma temática, mas somente o texto primoroso de Ayn Rand destaca o sofrimento humano gerado por todo este processo.” – Jorge Gerdau Johannpeter – Presidente do Conselho de Administração da GERDAU

“A crise de 2007 e 2008 trouxe de volta a ameaça do Estado totalitário, controlador, pesado, burocrático e opressor. John Galt é a resposta a este leviatã. A longo prazo é o capitalismo que proporcionará mais riqueza e bem-estar.” – Salim Mattar Presidente do Conselho de Administração e CEO da Localiza Rent a Car S/A

A VIRTUDE DO EGOÍSMO

  • A pergunta “a vida não requer um pacto?” é geralmente feita por aqueles que falham ao diferenciar um princípio básico e algum  desejo específico concreto.
    (…) A desculpa dada em todos os casos do gênero é que o “pacto” é apenas temporário, e que a integridade pessoal será recompensada em algum futuro indeterminado. Mas não se pode corrigir a irracionalidade de um marido ou esposa submetendo-se a ela e encorajando-a a crescer. O indivíduo não pode alcançar a vitória de suas ideias ajudando a propagar as opostas às suas. Não se pode oferecer uma obra prima literária, quando se ficou rico e famoso, para um círculo de leitores que se conquistou escrevendo lixo. Se se achou difícil manter lealdade às próprias convicções iniciais, uma sucessão de traições – que ajudaram aumentar o poder daquilo nocivo que ele não teve coragem para combater não tornará a tarefa mais fácil depois, pelo contrário, a fará virtualmente impossível. NÃO PODE HAVER PACTOS COM PRINCÍPIOS MORAIS. ” Em qualquer pacto entre comida e veneno, somente a morte pode vencer. Em qualquer pacto entre o bem e o mal, somente o mal pode lucrar” (Quem é John Galt). Então você fica tentando perguntar : A vida não exige um pacto? Traduza a pergunta o seu real significado: “A vida não exige a reação daquilo que é verdadeiro e bom ante o falso e o mau? A resposta é exatamente isto que a vida proíbe – se alguém deseja conquistar nada mais do que uma extensão de anos torturantes gastos em autodestruição progressiva.” 

 

A toi, Français, et manifestant pro-palestinien | Par David B.


 

palestina

Para você, Francês, e manifestante pro-palestino – por David B.

Você está comovido pela causa palestina e que te provoca tantas emoções.
Eu não me perguntarei por quê você escolheu esta causa em particular, ao invés ao da Síria, Congo, Darfour, ou ainda, a dos Cristãos que são perseguidos no Oriente Médio.
Os Palestinos viveram tantos sofrimentos, eles mereceriam viver normalmente, e eu posso compreender por quê se da vontade de « ficar » do lado deles.
Eu posso compreender estas afinidades tão repentinas em relação a uma outra cultura, pois eu mesmo tenho uma paixão por Nova-Iorque, depois de ter ido la na primeira vez ha 20 anos, e que esta paixão nunca mais me deixou. Desde então eu revi varias antigas fotos de Manhattan, e me perguntei de que maneira esta megalópole foi construída. Você sabia que foram os membros de uma tribo indígena que participaram à maioria das obras dos arranha-céus, pois eles não tinham vertigem ? Martin Scorcese me contou que existiam gangues comunitárias que se enfrentavam em 1846 e que a Mafia estava omnipresente nos anos 70 e 80 ? Woody Allen me falou disso, com a sua maneira emocional e engraçada… Enfim, eu tentei me instruir sobre o tema o qual tanto me interessava. Desde então, eu voltei varias vezes para la e até vivi alguns meses

Eu gostaria de saber em que momento o teu coração vacilou, em que momento você teve este « amor a primeira vista » por esta cultura palestina. Você, cujo modo de vida é tão diferente dos habitantes de Gaza. Talvez você sentiu uma atração por Gaza no momento em ter encontrado por acaso um antigo cartão postal?
É verdade que ha algum tempo, as praias de Gaza faziam sonhar, como tantos outros lugares no Oriente Médio. Talvez até mesmo você passou suas férias neste local e voltou apaixonado de como você foi calorosamente recebido pela população, suas tradições, seus sorrisos, e suas alegrias… seus salões de chá ou café… Você teria guardado em si mesmo, memorias de imagens, sons, odores, etc. Ou talvez, através das artes locais que os palestinos te mostraram, um museu que você visitou e que demonstrou bem a beleza de sua civilização
Alguém que teria ajudado a descobrir, através de belos livros em papel glacé, a Arte ancestral da Palestina, obras de artistas desaparecidos ha séculos atras, e cujos fragmentos foram deixados para sempre, ou ainda, cujas influências ainda se percebem em obras de artistas contemporâneos. Talvez você tenha presenciado vestígios arquitetônicos que te deixaram de boca aberta, antigas escrituras, gravuras…
Talvez você ficou apaixonado pela cultura local mas… se foi o caso, permita-me em ter algumas duvidas… pois, em primeiro lugar, nunca existiu nenhum museu palestino. Eles não teriam muita coisa a expor que tenha mais do que um século. Houve uma primeira tentativa que exposição de arte palestina, mas esta durou somente nove horas, durante a visita do papa no ultimo dia 25 de Maio. Apesar disto, a Autoridade Pelestina decidiu criar, especialmente para este evento, fazendo prova de propaganda e veiculando mensagens de desinformação, reescrevendo a Historia, graças a cumplicidade de seu melhor artista pintor : Photoshop.

O papa e sua comitiva, pouco apreciaram, creio eu. Mas não se preocupe, a Autoridade Palestina, começou a construir um verdadeiro museu, desta vez, próximo a Ramallah, o qual você poderá visitar quando as portas forem abertas para visitas outono próximo. Eu me pergunto de quando datarão as peças mais antigas.
Mas fechemos os parênteses pois, a Arte Moderna Palestina existe de fato, e mesmo se ele traz frequentemente uma mensagem de ordem politica, baseada na educação recebida pelos artistas, ela merece, como todo tipo de arte, de se expressar para que as pessoas (a quais, eu tenho certeza que você também fara parte) se interessarão, caso elas o desejarem.
Em que momento você mudou de ideia ? Em que momento o teu interesse se transformou em paixão e, em seguida, em compromisso ativo por esta causa ? Você veio por conta própria ou foi depois de ter ouvido a respeito dos palestinos nos jornais, os quais, é verdade, descrevem de maneira repetitiva, como vitimas, passando varias vezes as mesmas imagens insuportáveis, sem adicionar explicações em sua integridade ?

Ou seria um grupo de amigos, talvez muçulmanos, que te contaram sobre as « atrocidades cometidas pelos Israelenses » e que isso te revoltou ? Existiu bem uma faísca que incendiou a tua indignação. Manifestar não é uma coisa anodina. Neste momento, acontecem todos os sábados e, talvez participem em família, ou com amigos. Deve-se vestir as crianças, levar os carrinhos de crianças, escrever bandeirolas, fabricar painéis.. Isso deve consumir bastante energia. A causa pelestina deve ter uma grande importância aos teus olhos, por preferir fazer isso, do que passear com os filhos, viajar para o final de semana, almoçar fora de casa, ir à praia com as crianças, ou até mesmo ir ao cinema com a namorada..
Este teu profundo interesse por esta causa me leva a pensar que você conhece muito bem o tema. Mas sera que você se informou bem sobre o assunto antes de participar a estas manifestações? Se eu te perguntasse, por exemplo, coisas simples, tais como : Você pode me situar rapidamente num mapa aonde fica Gaza e Jericó? Você o faria sem hesitação ? Você poderia me citar também o nome de qualquer antigo Presidente da Palestina (cuidado, trata-se de uma pergunta-arapuca) ? Qual o nome da moeda utilizada atualmente pelos palestinos ? Você sabe quantos palestinos têm de um lado, e de árabes-israelenses de um outro, e porquê eles existem nos dois lados da cerca ? E por quê se fala sempre daqueles, mas nunca destes ? Eu também poderia te perguntar por quê, estranhamente, os Israelenses não matam os árabes que estão em Israel, mas unicamente aqueles que estão do outro lado.. (mas cuidado novamente, pois ai esta uma outra pergunta-arapuca). Bem, trata-se de perguntas simples, cujas respostas não são suficientemente claras para que possa-se emitir uma opinião bem argumentada…

Se eu decidisse em me interessar pelos palestinos, de reservar um espaço a eles no meu coração, inúmeras outras perguntas me viriam naturalmente em mente, e eu gostaria de encontrar as respostas. Eu gostaria de ter bons argumentos para os defender de uma maneira a mais eficiente possível. Primeiramente, eu teria ido me documentar sobre as origens deste conflito, procurando primeiramente sites internet de informação que sejam neutros. Iria procurar saber se tudo o que me contam é verdade, ou se alguns aspectos dos discursos que essas pessoas (mesmo se elas nunca terem posto os pés nesta região) me contam, tem partes contraditórias ou partes ainda obscuras, ou que possam vir contra os meus princípios de tolerância. Eu iria até mais longe, ao ponto de procurar saber quem são estas pessoas que têm estes discursos, qual o seu papel na sociedade, e quais são os seus interesses por me contar tudo isso… Eu teria até mesmo vontade de ir à Palestina, poder ir ao encontro de moradores de Israel e Gaza. Eu teria estabelecido o máximo possível de contatos, com quem eu teria abordado e tentado tirar minhas duvidas, através de minhas questões e curiosidades. Eu iria tentar me impregnar de seus universos do dia-a-dia para melhor entender as verdadeiras razões e causas de seus sofrimentos. Eu iria em seguida para Israel, tentar compreender porquê la, a vida é tão diferente, pois, de fato, ela é realmente diferente do que me contam aqui, na França.

Este conflito tem uma complexidade fora do comum; Trata-se de um verdadeiro saco de nós, que mesmo os maiores especialistas do mundo inteiro, tem dificuldade de compreender, e que ninguém, ha mais de cinqüenta anos encontrou uma solução. Grandes cérebros cheios de boa vontade ficaram frustrados apos terem consagrado grande parte de suas vidas, porém sem êxito. O painel nunca foi inteiramente branco ou preto, mas existem regiões cinzas que apareceram no decorrer do tempo. Você acredita realmente que as poucas estorias que te contaram sobre os Israelenses são suficientes para que você possa estabelecer uma ideia real do fundo deste problema ? Você sabe que não se faz regras com exemplos, e que, para cada exemplo que possam me dar, eu teria dez contra-exemplos para te citar em retorno ?

Mas, visivelmente, você não pensou a tudo isso. Você preferiu a solução da facilidade, escolhendo um partido e, continua caminhando em frente, porém com a cabeça abaixada. Você se contentou em escutar os outros , sem por em duvida o que te contaram, mesmo que voluntariamente, te mal-informaram e te mentiram. Não sei se é por ingenuidade, por medo, por mal-consciência da época da Argélia, ou simplesmente porquê você esta a procura de um hobby. Mas você se colocou do lado ruim do muro. Pois você é provavelmente de boa vontade, mas, em tomando parte de manifestações, da maneira que fez, ao lado de pessoas pouco recomendáveis, você não ajudou em nada os palestinos, muito pelo contrario. Estes militantes ganharam a aposta pela primeira vez, em interessando pessoas por uma causa, mesmo se esta não te diz respeito em absolutamente nada, e que os palestinos não são os muçulmanos que mais sofrem no Oriente Médio. Em seguida, eles conseguiram te convencer também com falsas informações, para te manipular, se aproveitando da sua sensibilidade. E, para terminar, eles conseguiram uma terceira vez, em te pegando como refém, contra a tua própria vontade, para que você desfile ao lado deles, quando, repentinamente, eles começam a agitar bandeiras terroristas, gritando slogans contra os Judeus. Os mesmos slogans que se ouviu nas ruas de Paris em 26 de Janeiro, este triste « Dia da Raiva (Jour de Colère)», aonde, pela primeira vez desde a segunda guerra, se ouvia « Morte aos Judeus » e « Judeus, caiam fora, a França não é de vocês », cantados por, não somente por pessoas de extrema direita, mas como também pessoas originarias da imigração, e isso, sem que ninguém fosse incomodada.

Você é contra o anti-semitismo ?
Muito bem, isso me reconforta. Então se eu te entendo bem, você não detesta os Judeus, mas você desfila ao lado daqueles que querem destruir o pais deles e que aprovam organizações que pedem o assassinato de seu povo, pouco importa aonde eles se encontram na face da Terra. Como você acha que os Judeus deveriam responder em relação a isso? O que você faria no lugar deles ?

Não seria ao lado destes alguns (centenas, como demonstrado no vídeo) extremistas / gentalhas e baderneiros com quem você estava desfilando, mas justamente com os outros ?

Além do mais, você não reparou que as bandeiras do Hamas, Hezbollah, e até mesmo do ISIS nunca saíram do cortejo e que, ninguém nunca os pediu para que eles baixassem e guardassem estas mesmas bandeiras? E quais eram mesmos os slogans que você estava cantando, do lado pacifico do cortejo ? « Viva Palestina, Palestina sobrevivera », « Palestina aos Palestinos ».. mas também « Nos somos todos Palestinos », « Israel Assassino », « Hollande, (o Presidente, não o pais » Assassino », alguns ainda, « Allahou Akbar », etc…
Você pensa que, dizendo « Palestina ao Palestinos », teus colegas estariam interpretando « Gaza e Jerico, que devem formar o futuro Estado Palestino, ou de toda a região situada do Jordão até o mar, que se chama Israel ? E o que eles insinuam então ao dizer o que iria acontecer com os Judeus que la vivem atualmente ? Aonde esta a mensagem de paz ? Você já assistiu a uma manifestação israelense para ver a diferença ? Para aonde foi o teu amor, a tua intenção inicial nisso tudo ??!!
Você quer realmente ajudar os Palestinos ? Então faça a si mesmo as boas perguntas ! Ponha em causa a utilidade do movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções (contra Israel)) pois esta nova guerra de Gaza trouxe muitos novos aderentes, da mesma maneira que suas manifestações o trouxeram para a Marine Le Pen. Esse bom e velho BDS, para quem quer saber, tem dupla função : Para você, permite de descontrair o sentimento de injustiça, te dando assim a impressão de estar fazendo algo de bom, trazendo solidariedade aos palestinos. E, para nos, só nos serve de termômetro para medir o grau de antissemitismo. Graças a isso, nos permite de ter uma ideia do numero de pessoas que nos detesta, nos os Judeus.
O que faz realmente o BDS para a população palestina ? Eles chamam ao boicote contra as empresas israelenses, pensando atingirem assim a economia do pais. Mas, em que isso ajuda os palestinos ? Melhora seu dia-a-dia ? O BDS diz a seus membros que os palestinos estão muito contentes por poderem se vestir na loja H&M do centro comercial de Jerusalém ? Ele diz também que existe uma grande diferença entre boicotar os produtos originários de Israel e aqueles originários dos Territórios ? Ele explica que na empresa Soda Stream, os empregados árabes têm exatamente os mesmo salario e vantagens que os judeus, e que todos têm receio de perderem seus empregos caso a empresa fechasse suas portas por causa do boicote (sabendo que a empresa se abraça a tolerância e a paz ) ? Ao menos que ele não se contente em denunciar o patrão dizendo que ele explora esta mão-de-obra de uma maneira « escravagista » ? Pois não faz muito tempo, a BDS acusava Israel de ser um « Estado Apartheid », o que mudava um pouco dos habituais slogans « Estado opressor », « Ocupante », « Genocida », « Assassino »

Todas estas organizações, ou outras associações pro-palestinas, passam mais de tempo e energia, tentando demonizar Israel, do que a melhorar a qualidade de vida dos próprios pelestinos. Elas fazem exatamente a mesma coisa que o Hamas, elas utilizam a miséria de uns para que melhor odeiem os outros. Eles se concentraram sobre mensagens sobre Israel, ao invés de se focalizarem nos palestinos. E você, você esta jogando o mesmo joguinho que eles, defendendo suas idéias e apoiando suas ações. Para mim, você é vitima dos mesmos carrascos dos palestinos. Aqueles que te trouxeram para esta estoria, sabem muito bem o que lhes fazem, e seus planos são baseados em longo termo. Em te levando para a causa deles, você é utilizado como um peão e traem a tua confiança. Eles utilizam os teus sentimentos e tua compaixão para que seu ódio seja confortado. Eles se servem de você para veicular uma mensagem que você mesmo se interditaria de pensar. Pois tuas manifestações pro-palestinas são rapidamente transformadas em agrupamentos contra-israelenses, que são, por sua vez, facilmente propulsadas ao anti-semitismo e algumas vezes possam chegar até ao pogrom.
Eu poderia te falar bem de Israel durante horas, seja para tentar defende-lo, ou te convencer, mas você estaria ainda hermeticamente fechado sobre o meu discurso. Eu gostaria somente te dizer que ainda não esta tarde demais para mudar de ideia e passar para o lado dos que lutam pela liberdade, inclusive a tua própria. E muito rápido, até instantâneo, basta querer. Isto não te evitaria em ter compaixão aos palestinos e até ajuda-los, caso tenhas vontade. Mas informe-se sobre o assunto. Para começar, apenas te pergunte sobre esta causa em particular a qual te toca tanto, e tente responder com sinceridade a seguinte questão : Sera que eu amo os Palestinos mais do que eu detesto Israel ? E, em seguida, questione-se por quê.

 

Texte traduit du français au portugais par Sergio Esmeraldo. Texte Originale de David B.
Article paru dans Le Monde Juif Info, le 13 août 2014.
http://www.lemondejuif.info/…/toi-francais-manifestant…/

A História é a Ciência da Infelicidade dos Homens- 17 ANOS DA MORTE DE POL POT.


O MASSACRE DO CAMBOJA

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O genocídio cambojano de 1975-1979, foi uma das piores tragédias humanas do século passado. Como no Império Otomano durante o genocídio armênio, na Alemanha nazista, e, mais recentemente, em Timor Leste, Guatemala, Iugoslávia e Ruanda, o regime do Khmer Vermelho liderado por Pol Pot combinou ideologia extremista com animosidade étnica e um desrespeito diabólico para a vida humana para produzir repressão, miséria e assassinato em uma escala maciça. Saloth Sar nasceu no ano de 1925 em uma família de agricultores no centro de Camboja, que era então parte da Indochina francesa . Em 1949, aos 20 anos, ele viajou para Paris, onde teve seu primeiro contato com o comunismo .Negligenciando seus estudos acadêmicos e inspirado pelo Partido Comunista Francês e seus ideais marxistas, se dedicou a grupos de estudo da ideologia e ao combate à monarquia absolutista do Príncipe Norodom Sihanouk. Assim se formaram os primeiros membros do Khemer Vermelho. Em 1953, Sar, após perder sua bolsa de estudos, retorna ao Camboja, e alia-se ao movimento comunista clandestino  Em 1962 , Pol Pot havia se tornado líder do Partido Comunista do Camboja e foi forçado a fugir para a selva para escapar da ira do príncipe Norodom Sihanouk , líder do Camboja. Na selva, Pol Pot formou um movimento de resistência armada que ficou conhecido como o Khmer Rouge ( cambojanos vermelhos ) e travaram uma guerra de guerrilha contra o governo de Sihanouk . Em 1970 , o príncipe Sihanouk foi deposto , e não por Pol Pot, mas devido a um golpe militar direitista apoiado pelos EUA .Sihanouk junta-se ao seu antigo inimigo Pol Pot em oposição ao governo militar do Camboja.Nesse mesmo ano, os EUA invadiram o Camboja para expulsar os norte-vietnamitas a partir de seus acampamentos nas fronteiras. De 1969 até 1973 , os EUA bombardearam intermitentemente a região, totalizando 600 mil mortes como resultado , os camponeses fugiram do campo, estabelecendo-se na capital  Phnom Pehn. Esses eventos resultaram em desestabilização econômica e militar no Camboja e uma onda de apoio popular para Pol Pot e os khmers vermelhos. Aos poucos os khmers avançaram e tomando cidades uma a uma até se aproximar de Phnom Pehn.

ano zero

A fraqueza da economia e a pobreza da maioria dos habitantes, reforçam a atração por aqueles que se apresentam como promotores de um possível progresso.

O começo da pior ditadura de todos os tempos- O Ano Zero. Pol Pot havia recomendado oito pontos distintos que deveriam nortear as ações de suas forças militares, de acordo com Ben Kiernan.

1- Evacuar as pessoas de suas cidades

2- Abolir todos os mercados

3- Abolir a moeda do regime republicano de Lon Nol e implantar a moeda da revolução que havia sido impressa.

4- Capturar todos os monges budistas e forçá-los a trabalhar no plantio de arroz.

5- Executar todos os líderes do Regime de Lon Nol, começando pelos mais graduados.

6- Estabelecer cooperativas de alto nível ao longo de todo o país, com área de alimentação comum.

7- Expelir toda a população minoritária vietnamita

8- Enviar tropas às fronteiras, especialmente à fronteira com o Vietnã.

“Na Kampuchea Democrático, não havia prisões, nem tribunais, nem universidades, nem liceus, nem moeda, nem correios, nem livros, nem prática de esportes, nem distrações. Não era tolerado qualquer tempo morto numa jornada de 24 horas. A vida cotidiana dividia-se assim : 12 horas de trabalhos físicos, duas horas para comer, três horas para repouso e educação, sete horas de sono. Estávamos num imenso campo de concentração.Já não havia justiça.Era em Angkar que se decidia sobre todos os atos da nossa vida. Os Khmers Vermelhos utilizavam frequentemente parábolas para justificarem os seus atos e ordens contraditórios. Comparavam o indivíduo a um boi: Vocês vêem esse boi que puxa o arado. Ele come onde nós mandamos. Se o deixarmos pastar nesse campo, ele come. Se o levarmos para outro campo onde não haja erva suficiente, ele pasta, apesar de tudo. Não se pode deslocar. É vigiado. E, quando lhe dizemos que puxe o arado, ele o puxa. Ele nunca pensa na mulher ou nos filhos. O Kampuchea Democrático deixou, a todos os sobreviventes, essa impressão de estranheza, de perda de referências e valores, Passara-se realmente para o outro lado do espelho, e, se uma pessoa queria manter uma possibilidade de sobreviver, tinha de iniciar-se urgentemente nas novas regras do jogo. O primeiro ponto era o desprezo radical pela vida humana : Perder-se não é uma perda. Manter-se não tem qualquer utilidade – todos os testemunhos referem a essa temida fórmula. Foi efetivamente uma descida ao inferno o que viveram os cambojanos, conheceram desde então a supressão da cultura budista, o arrancar dos jovens de suas famílias, a imposição de um código de indumentária uniforme, a transformação das cooperativas de produção em brigadas.

AS CRIANÇAS DE POL POT

pol pot crianças Todos os testemunhos continham os relatos da extrema juventude de uma grande parte dos soldados khmers vermelhos.São recrutados aos 12 anos, por vezes menos- Sihanuk teve pré adolescentes entre os seus guardas, que se distraíam torturando gatos. Ly Heng  evoca a última campanha de recrutamento, estendida aos novos: dirigia-se tanto aos rapazes como às moças, entre 13 e os 18 anos; diante do pouco sucesso da convocação de voluntários, brigadas móveis de jovens foram obrigadas a passar dos estaleiros para o exército. Os Jovens recrutas perdiam todos os contatos com a família, e geralmente com o povoado natal.Vivendo em acampamentos, relativamente afastados da população que os temia, honrados pelo poder. Para lá do palavreado revolucionário, a motivação de muitos confessada até por alguns fugitivos, era “não precisar trabalhar e poder matar pessoas”. Os que tinham menos de 15 anos eram os mais temíveis:” eles eram recrutados muito novos, e só lhes era ensinada a disciplina.Simplesmente obedecer as ordens, sem necessidade de justificação, não acreditavam nem na religião, nem na tradição, mas apenas nas ordens dos Khmers Vermelhos. Era por isso que matavam seu próprio povo, bebês inclusive como se matam mosquitos” Os soldados eram frequentemente usados desde 8 ou 9 anos como espiões; no entanto, o grau de adesão do regime era tão fraco, que se instalou muitas vezes uma forma de cumplicidade tácita entre eles e os espionados, sempre arranjando-se uma maneira de avisá-los discretamente de sua presença. Um pouco mais velhos, após os expurgos em massa de quadros locais, eles se tornaram “crianças milicianas”, suplentes dos novos chefes de cooperativas, encarregados de localizar, prender e espancar culpados de auto alimentação.A experiência de Laurence Picq, no Centro, mostra que, com o tempo, a ditadura infantil estava destinada a uma extensão de sua atuação ao domínio do enquadramento civil. Picq descreve a formação acelerada de um contingente de crianças dos campos: “Explicaram-lhes que a primeira geração de quadros tinha traído e que a segunda não era melhor do que a primeira.Por isso eles seriam chamados a substituí-las muito rapidamente”. Foi entre essa nova geração que apareceram as crianças-médicos.Elas eram seis meninas de 9 a 13 anos.Mal sabiam ler, mas o Partido confiou a cada uma delas uma caixa de seringas.Estavam encarregadas de dar injeções. “As nossas crianças médicos-eles nos diziam- são oriundas do campesinato.Elas estão prontas a servir a sua classe.São notavelmente inteligentes. É só dizer-lhes que a caixa vermelha contém vitaminas, e elas se lembrarão.Mostrem como se esteriliza uma seringa, e elas saberão fazê-lo!” Essas crianças eram puras,incontestavelmente, mas ninguém contara com a embriaguez que proporciona o saber dar injeção! Muito rapidamente as crianças médicos mostraram-se de uma arrogância sem precedentes. A ruptura resulta ainda da supressão da religião, e do extremo moralismo imposto em todos domínios da vida cotidiana. A arbitrariedade é total: o partido não tem de justificar suas escolhas políticas, nem a seleção dos quadros, nem as suas mudanças, quer de orientação, quer de pessoal : ai daquele que não compreendeu a tempo que os vietnamitas eram inimigos, ou que tal líder histórico do movimento era de fato um agente da CIA! É do angulo da traição, ou da sabotagem conduzida pelas antigas classes exploradoras e os respectivos aliados, que Pol Pot analisava o fracasso (econômico e frequentemente militar) cada vez mais patentes do regime, daí o exagero das medidas criminosas.

GENOCÍDIO? 

Angkor Pnohm 212

  É necessário tomar a decisão de qualificar os crimes dos Khmers Vermelhos. É uma aposta científica: situar o Camboja relativamente aos outros grandes horrores desse século e inscrevê-lo no respectivo lugar na história do comunismo. É igualmente uma necessidade jurídica: uma parte significativa dos responsáveis do PCK (Partido Comunista Khmer) está ainda viva,e ativa. Devemos resignar-nos com o fato de que eles continuem a gozar de uma total liberdade? Em caso negativo, sob que pontos de incriminação julgá-los? Que Pol Pot e os seus correligionários são culpados de crimes de guerra é uma evidência: os prisioneiros do exército republicano foram sistematicamente maltratados e muitas vezes executados; aqueles que depuseram as armas em 1975 foram seguidamente perseguidos sem piedade. O crime contra a humanidade não constitui problema: grupos sociais inteiros foram considerados indignos de existirem, e largamente exterminados. A menor divergência política, verdadeira ou suposta, era punida com a morte. A verdadeira dificuldade reside no crime de genocídio. Se tomarmos a definição ao pé da letra, arriscamo-nos a cair numa discussão um pouco absurda: aplicando-se o genocídio apenas aos grupos nacionais, étnicos, raciais e religiosos, e, como globalmente os Khmers não podem ser considerados alvos de extermínio, toda a atenção se concentra nas minorias étnicas, e eventualmente no clero budista. Mas, mesmo todos juntos, esses grupos apenas constituíram uma parte relativamente reduzida das vítimas; além disso, como vimos, é arriscado afirmar que os Khmers Vermelhos reprimiram especificamente as minorias, exceto os vietnamitas a partir de 1977 – embora restassem muito poucos nessa altura; os próprios Cham foram visados principalmente porque a sua fé islâmica representava um foco de resistência. Alguns autores tentaram resolver o problema introduzindo a noção de politicídio – definido em geral como um genocídio de base política (poder-se-ia utilizar também sociocídio (genocídio de base social). Trata-se de recuar para melhor saltar: devemos situá-lo, sim ou não, no mesmo nível de gravidade que o genocídio? E, se sim, como esses autores parecem entender, por que razão embaralhar as pistas não mantendo o termo consagrado? É preciso lembrar que, durante as discussões prévias à adoção da Convenção do Genocídio pela ONU, só a URSS, por razões demasiado óbvias, se opôs à inclusão do grupo político entre os qualificativos do crime. Mas, sobretudo, o termo racial (que não abrange, note-se, nem a etnia nem a nação) deveria proporcionar uma solução: a raça, fantasma desmontado pelos progressos do conhecimento, só existe aos olhos de quem pretende delimitá-la; na realidade, é tão lógico falar de uma raça judaica como de uma raça burguesa. Ora, para os Khmers Vermelhos, como, aliás, para os comunistas chineses, certos grupos sociais são globalmente criminosos por natureza; além disso, esse “crime” é transmitido tanto aos cônjuges como à descendência, através de uma forma de hereditarização dos caracteres (sociais) adquiridos.Portanto, temos o direito de evocar uma racialização desses grupos sociais: o crime de genocídio pode então aplicar-se à sua eliminação física, levada muito longe no Camboja, e seguramente conduzida com conhecimento de causa. Assim, Y Phandara ouve um Khmer Vermelho dizer, a propósito do “17 de abril”: “É o nome dos citadinos que apoiavam o regime do traidor Lon Nol. Há entre eles imensos traidores. O Partido Comunista teve a prudência de eliminar uma boa parte deles. Os que ainda vivem trabalham no campo. Já não têm energia para se erguerem contra nós.” Para milhões de cambojanos de hoje, a fratura da “era Pol Pot” deixou a sua marca de fogo, irremediável. Em 1979, 42% das crianças eram órfãs, três vezes mais de pai do que da mãe; 7% haviam perdido os dois progenitores. Em 1992, é entre os adolescentes que a situação de isolamento é mais dramática: 64% de órfãos. Uma parte dos males sociais gravíssimos que ainda hoje fazem enormes estragos na sociedade cambojana, de um nível excepcional relativamente à Ásia Oriental, provém desta desarticulação: criminalidade em massa e frequentemente violenta (as armas de fogo são encontradas por todos os lados), corrupção generalizada, desrespeito e falta de solidariedade,ausência em todos os níveis, do menor sentido do interesse geral. As centenas de milhares de refugiados no estrangeiro (150 mil só nos Estados Unidos) continuam, também eles, a sofrer o que viveram: pesadelos frequentes, a mais alta taxa de depressões nervosas de todos os oriundos da Indochina, uma grande solidão para as mulheres que chegaram sozinhas, em numero muito maior do que os homens da sua geração, assassinados. E, no entanto, a energia da sociedade cambojana não desapareceu: quando, em 1985, os últimos resquícios da coletivização foram abandonados, o aumento da produção permitiu quase de imediato o desaparecimento da penúria alimentar. Em face dos responsáveis da ditadura khmer vermelha, esse laboratório de todos os desvios mais sombrios do comunismo, os cambojanos, nos quais se compreende o desejo primordial de regressarem a uma vida normal, não devem ser os únicos a suportar o fardo da liquidação de um passado terrível. O mundo, que com frequência teve tanta complacência para com os seus carrascos, e tão tardiamente, deve também tomar esse drama como SEU. “Com a água produz-se o arroz, com o arroz faz-se a guerra”. Nunca os Khmers Vermelhos julgaram dizer uma verdade tão grande: NUNCA HOUVE ARROZ SUFICIENTE, E PERDERAM A GUERRA!

INDICAÇÕES:

VIDEOS

” Todos os filmes de Rithy Panh têm como questão central o genocídio do Camboja conduzido pelo regime do Khmer Vermelho, que vitimou, entre 1975 e 1979, cerca de 2 milhões de pessoas numa população de aproximadamente 7 milhões”

   Entre os mortos, estão pais, irmãos e outros familiares do diretor. Ele conseguiu fugir para um campo de refugiados na Tailândia. Site 2 é o nome desse campo, e é também o título de seu primeiro documentário em longa-metragem, filmado no local, em 1989     A máquina de morte do Khmer Vermelho (S-21 – La machine de mort Khmer Rouge, 2003          Por seu mais recente trabalho, A Imagem que Falta, o diretor recebeu o prêmio Un Certain Regard no Festival de Cannes. Reinventando-se, o diretor utiliza dois recursos inéditos em sua obra para recompor cenas de seu passado: o uso de miniaturas de argila e narração em primeira pessoa. Sua declaração sobre esse filme resume bem o conjunto de sua obra: “Há tantas imagens no mundo que acreditamos ter visto tudo. Pensado tudo. Há muitos anos que procuro uma imagem que falta. Uma fotografia tirada entre 1975 e 1979 pelos Khmers vermelhos, quando dirigiam o Camboja. Claro, por si só, uma imagem não prova o crime massivo; mas faz pensar; faz meditar. Ajuda a construir a história. Procurei-a em vão nos arquivos, nos documentos, nas aldeias do meu país. Agora eu sei: essa imagem deve faltar; e não a procurava – não seria obscena e sem significado? Então fabrico-a. O que eu ofereço hoje não é uma imagem, ou a busca de uma única imagem, mas a imagem de uma busca: aquela que o cinema permite. Algumas imagens devem continuar a faltar, devem sempre ser substituídas por outras: nesse movimento encontra-se a vida, o combate, a pena e a beleza, a tristeza dos rostos perdidos, a compreensão daquilo que existiu; por vezes a nobreza, e até a coragem: mas o esquecimento, nunca.”

FONTES:

http://puc-riodigital.com.puc-rio.br/Jornal/Mundo/Ha-35-anos,-Khmer-Vermelho-tomava-o-poder-no-Camboja-6542.html#.U7nIvJRahNA http://www.yale.edu/cgp/ http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47134/tde-16122009-082827/pt-br.php http://revistadecinema.uol.com.br/index.php/2013/10/premiado-cineasta-cambojano-rithy-panh-tem-retrospectiva-inedita/

 LIVROS O silêncio do Algoz François Bizot

O MASSACRE DAS FOIBE- O HOLOCAUSTO ITALIANO


“Foibe ou Foiba, são grandes buracos ou cavernas verticais ou poços em formato de um funil em posição invertida, sumidouros cársticos, somente na região de Istria estão catalogadas cerca de 1.700 foibe.

FOIBE: AL SENATO GIORNO DEL RICORDO CON NAPOLITANO E LETTA

O Massacre das Foibe aconteceu logo após o fim da segunda guerra mundial. Na Itália a palavra “Foibe” tem um significado simbólico pois representa todos os desaparecimentos ou mortes de pessoas italianas (fascistas e não fascistas, civis, homens, mulheres e crianças), nos territórios ocupados por forças comunistas Iugoslavas.

O massacre das foibe foi uma limpeza étnica (Um genocídio) contra a população da Itália que habitava a região da Ístria e Dalmácia,que com o fim da Segunda Guerra Mundial passaram a pertencer á Iugoslávia, foi um genocídio praticado pelos comunistas partisans, comandado por Josip Broz (Tito) e financiado pela União Soviética.
Os principais perseguidos pelos comunistas eram os fascistas, porém não demorou muito, também os não-fascistas passaram a ser perseguidos e assassinados com a única culpa de serem italianos. Os prisioneiros eram julgados, sem possibilidade de recurso, em que a decisão era sempre a pena de morte e executados imediatamente. Em 1943 descobriu-se um método mais eficaz para matar os prisioneiros ainda vivos. O “enfoibamento”.
As vítimas foram levadas para a beira dessas cavidades, amarradas com arame, os pés e as mãos e em seguida amarradas umas ás outras, o método de crueldade era, matar o primeiro quem estava á beira com um tiro na cabeça e esse caindo, arrastava os outros ainda com vida para o sumidouro.
Assim o enfoibamento manteve-se como o sistema de eliminação preferido pelos partisans comunistas, pela rapidez e por ser menos cansativo, por não ter que cavar buracos para enterrar as vítimas e acima de tudo por ser o sistema mais feroz.
Quantas pessoas foram assassinadas e jogadas? nós nunca saberemos, a única Foiba que permaneceu em território Italiano, a Bazovica, forneceu 500 metros cúbicos de restos humanos,cerca de 2.000 pessoas. As outras, as autoridades Iugoslavas nunca permitiram a realização de investigação em seus territórios e sempre recusou qualquer tipo de cooperação, e de fato foram rápidos em destruir nos países ocupados, os arquivos municipais e os arquivos de registros, para impedir qualquer investigação que poderia determinar o número de pessoas mortas.
Em 1947 os aliados deram a Tito o que ele queria: Istria, Fiume e Dalmácia, o que levou o êxodo de 300 mil italianos, os quais muitos outros foram mortos durante a deportação, ou nos campos de concentração Iugoslava.

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NORMA COSSETTO

Uma das vítimas mais conhecida do Massacre das Foibe foi Norma Cossetto , uma estudante universitária de Istria, foi torturada , estuprada e jogada em um dos muitos desfiladeiros que caracterizam o território de Venezia Giulia , juntamente com 25 outros infelizes na noite entre 4 e 5 de Outubro de 1943. Sua história tem sido muitas vezes considerada como emblemática para descrever as tragédias e sofrimentos de Istria e Venezia Giulia

Norma Cossetto era uma menina bonita de 24 anos , graduando-se em Filosofia e Letras na Universidade de Pádua . Naquela época estava preparando o material para a sua dissertação , que foi intitulado “The Red Istria ” .
Em 25 de setembro de 1943, um grupo de guerrilheiros invadiu a casa dos Cossetto, eles foram até mesmo nos quartos , disparando sobre as camas para assustar as pessoas . No dia seguinte, retiraram  Norma de sua casa . Foi levada pela primeira vez no antigo quartel dos Carabinieri Visignano onde os líderes forçaram á concordar em cooperar e juntar-se ao partido comunista italiano, com a recusa, trancaram-na no antigo quartel da Guardia di Finanza , em Porec, juntamente com outros parentes, amigos e conhecidos .

Após alguns dias , todos eles foram movidos durante a noite e transportados por caminhão na escola Antignana , onde Norma começou seu verdadeiro martírio. Amarrada em uma mesa com algumas cordas , foi estuprada por dezessete captores , então jogada nua  na caverna não muito longe, em uma pilha de outros corpos de Istria.

Em 10 de dezembro de 1943, o Corpo de Bombeiros de Pula, sob o comando do marechal Harzarich , recuperaram seu corpo : ela tinha caído de costas, nua , com os braços amarrados com arame, em uma pilha de outros corpos emaranhados , e teve as duas mamas esfaqueadas e outras partes do corpo cheio de cicatrizes, Norma tinha as mãos amarradas para a frente, enquanto as outras vítimas foram amarradas atrás . Em depoimento de  prisioneiros partidários , tomado mais tarde pela Istria militar italiana , soube-se que Norma, durante a prisão foi estuprada por muitos.

NORMA

Foibes:

-Foibe de Basovizza e Monrupino: hoje monumento nacionais. Centenas de vítimas. Entre os responsáveis pelos “enfoibamentos”, pode ser incluído um bando de libertadores denominados Guarda do Povo.

– Foiba de Podubbo: não foi possível, por dificuldades a recuperação de qualquer vitima, um Jornal da época refere que aqueles que desceram á profundidade de 190 metros conseguiram reconhecer cinco corpos, entre os quais uma mulher completamente nua, não identificados devido á decomposição.

– Abismo de Semich: uma inspeção em 1994 apurou que os Partisans de Tito, no mês de setembro haviam lançado no abismo de Semich, com uma profundiade de 190 metros, uma centena de soldados italianos e civis homens e mulheres, quase todos espancados antes e ainda vivos. Impossível saber o número dos que foram lançados depois da guerra terminar, esta é uma das tantas “foibes” cársicas consideradas aptas pelos líderes dos tribunais populares, para condenar várias infâmias. Nesse caso quem tivesse sentimentos italianos ou fosse simplesmente objeto de suspeita ou rancores. Por dias a população ouviram gritos provenientes do abismo, os gritos dos que sobreviveram, seja por ficarem presos nas saliências rochosas, seja por ficarem loucos pelo desespero (  testemunho de Mons. Parentin – em “La Voce Giuliana” de 16/12/1980).

esule-giuliana 

– Foibe de Opicina de Campagna e de Corgnale : Foram “enfoibadas” cerca de 200 pessoas e entre essas encontra-se uma mulher e uma criança, réus de serem mulher e filho de um guarda Carabinieri.

– “Foibe” de Casserova: na estrada de Fiume, entre Obrovo e Golazzo. Foram lançados alemães, homens e mulheres italianas, eslovenos, muitos ainda vivos, então, depois de lançar gasolina e granadas de mão, fechando totalmente a entrada. Dificílima a recuperação.

– Abismo de Semez: a 7 maio de 1944 eram encontrados restos humanos correspondentes a oitenta ou cem pessoas. Em 1945 foi ainda “usado”.

– “Foibe” de Villa Orizi: no mês de maio de 1945, os habitantes locais viram longas filas de prisioneiros, alguns dos quais recitavam o pai nosso, escoltados por partisans armados com metralhadoras, serem conduzidos ao precipício. Os testemunhos estão de acordo ao indicar cerca de duzentos prisioneiros eliminados.

– “Foibe” de Raspo: usada como palco de genocídio de italianos entre 1943 e 1945. Número de vítimas indefinido.

– “Foibe” de Brestovizza: assim narra o “Giornale di Trieste” datado de 14/08/1947: “… os assassinos tinham-na espancado brutalmente, partindo-lhe os braços antes de a lançar na “foibe”. Por três dias, dizem os habitantes, ouviram-se os gritos da pobre que continuava deitada e ferida, entregue ao terror, no fundo da gruta…”.

– “Foibe” de Zavni (floresta de Tarnova): lugar de martírio dos guardas carabinieri de Gorizia e de outras centenas de eslovenos opositores ao regime de Tito.

Fontes:

http://ansabrasil.com.br/

http://digilander.libero.it/lefoibe/

http://www.lefoibe.it/storie.htm